l libro della seconda classe (1930, 1933 e 1938): a utilização dos livros de leitura na formação da cultura escolar fascista na Itália
Izabelle Seoldo Marques*
Universidade Federal de Minas Gerais, Brasil.
https://orcid.org/0009-0002-4576-5309
Recibido: 30 de octubre de 2025 | Aceptado: 5 de diciembre de 2025
Resumo
O fascismo italiano utilizou a educação como ferramenta política para consolidar valores como disciplina e lealdade ao regime. Com isso, foi estruturada uma cultura escolar alinhada aos princípios do Estado fascista, por meio de uma série de transformações educacionais, como a política do Livro Único (1929). Este trabalho apresenta parte de uma pesquisa de mestrado em desenvolvimento, cujo objetivo é analisar os livros didáticos da Itália fascista e suas representações ao promoverem uma visão oficial do regime, refletindo as estratégias governamentais para consolidar uma narrativa que valorizava o fascismo. Sendo assim, foram analisados três livros de leitura da segunda série do ensino primário intitulados Il libro della seconda classe dos anos de 1930, 1933 e 1938. Como referencial teórico-metodológico, utilizamos o conceito de representação de Chartier (1991, 1998) para compreender o papel dos livros didáticos na incorporação do fascismo às relações sociais e ao cotidiano escolar. Os estudos de Bittencourt (1993) e Choppin (2004) foram fundamentais para analisar os livros de leitura como instrumentos de construção política, cultural e social no fascismo italiano. Esses autores auxiliam na compreensão sobre a forma que a educação era utilizada como projeto de construção do “italiano novo”.
Palavras-chave
Livros didáticos, fascismo italiano, cultura escolar, identidade nacional
Il libro della seconda classe (1930, 1933 y 1938): la utilización de los libros de lectura en la formación de la cultura escolar fascista en Italia
Resumen
El fascismo italiano utilizó la educación como herramienta política para consolidar valores como la disciplina y la lealtad al régimen. Con ello, se estructuró una cultura escolar alineada con los principios del Estado fascista, a través de una serie de transformaciones educativas, como la política del Libro Único (1929). Este trabajo presenta parte de una investigación de maestría en desarrollo, cuyo objetivo es analizar los libros de texto de la Italia fascista y sus representaciones, en la medida en que promovían una visión oficial del régimen, lo que refleja las estrategias gubernamentales para consolidar una narrativa que valorizaba el fascismo. Así, se analizaron tres libros de lectura del segundo curso de la enseñanza primaria, titulados Il libro della seconda classe, de los años 1930, 1933 y 1938. Como referencia teórico-metodológica, utilizamos el concepto de representación de Chartier (1991, 1998) para comprender el papel de los libros de texto en la incorporación del fascismo a las relaciones sociales y al cotidiano escolar. Los estudios de Bittencourt (1993) y Choppin (2004) fueron fundamentales para analizar los libros de lectura como instrumentos de construcción política, cultural y social en el fascismo italiano. Estos autores contribuyen a comprender la manera en que la educación se utilizó como un proyecto de construcción del “nuevo italiano”.
Palabras clave
Libros de texto, fascismo italiano, cultura escolar, identidad nacional.
Il libro della seconda classe (1930, 1933, and 1938): The Use of Reading Textbooks in Shaping Fascist School Culture in Italy
Abstract
Italian fascism used education as a political tool to consolidate values such as discipline and loyalty to the regime. In doing so, a school culture aligned with the principles of the fascist state was structured through a series of educational transformations, such as the Single Textbook policy (1929). This paper presents part of an ongoing master’s research project whose aim is to analyze the textbooks of Fascist Italy and their representations as they promoted an official vision of the regime, reflecting governmental strategies to consolidate a narrative that valorized fascism. Accordingly, three reading books for the second year of primary school, titled Il libro della seconda classe and published in 1930, 1933, and 1938, were analyzed. As a theoretical-methodological framework, we use Chartier’s (1991, 1998) concept of representation to understand the role of textbooks in incorporating fascism into social relations and everyday school life. The studies of Bittencourt (1993) and Choppin (2004) were fundamental for analyzing reading books as instruments of political, cultural, and social construction in Italian fascism. These authors help us to understand the ways in which education was used as a project for shaping the “new Italian”.
Keywords
Textbooks, Italian fascism, school culture, national identity.
Introdução
O fascismo italiano utilizou a educação como ferramenta política para consolidar valores como disciplina, hierarquia e lealdade ao regime. Com o objetivo de formar cidadãos italianos subordinados e apoiadores do fascismo, foi estruturada uma cultura escolar alinhada aos princípios do Estado fascista, por meio de uma série de transformações educacionais. Segundo Bertonha (2017), “o fascismo pretendeu criar não só uma nova Itália, mas também um novo italiano, o qual seria forte moral e fisicamente, disciplinado, saudável e apto à vida militar e à conquista de outros povos” (p. 149). Nesse contexto, este trabalho apresenta parte de uma pesquisa de mestrado em desenvolvimento, cujo objetivo é analisar a utilização de livros de leitura na década de 1930 na formação da cultura escolar fascista na Itália. O artigo busca contribuir na investigação das estratégias do regime em promover uma visão oficial do regime para consolidar uma narrativa histórica centrada no nacionalismo, na hierarquia e na naturalização da violência.
Neste trabalho, analisamos três livros de leitura da segunda série do ensino primário: Il libro della seconda classe (1930), compilado por Dina Belardinelli-Bucciarelli e ilustrado por Pio Pullini; Il libro della seconda classe (1933), de autoria de Ornella Quercia Tanzarella, com ilustrações de Mario Pompei; e Il libro della seconda classe (1938), em que o autor é Alfredo Petrucci e o ilustrador é Piero Bernardini. Iremos observar a relação das políticas educacionais com a produção e conteúdo dos livros, as representações do fascismo italiano na escola, e o modelo de sociedade proposto pelo regime a partir da formação escolar.
Para esta análise, utilizou-se a concepção de história cultural proposta por Chartier (1998), que permite “identificar o modo como, em diferentes lugares e momentos, uma determinada realidade social é construída, pensada, dada a ler” (p. 16). Nesse sentido, o livro didático é compreendido como um objeto cultural inserido em um conjunto de representações que expressam e reforçam valores da sociedade fascista. A partir dessa perspectiva, o conceito de representação (Chartier, 1991) orienta a investigação sobre o papel dos livros didáticos na incorporação do fascismo às relações sociais e ao cotidiano escolar. Além disso, considera-se a materialidade desses livros, conforme aponta Chartier (1998), que envolve não apenas aspectos tipográficos, mas também seus usos, conteudos e análise da iconografia.
Ademais, para aprofundar o estudo dos livros didáticos utilizados nesta pesquisa, tomou-se como referência os estudos de Bittencourt (1993) e Choppin (2004) para compreender os livros de leitura como instrumentos de construção política, cultural e social no contexto do fascismo italiano. As obras investigadas “constituem um depositário dos diversos conteúdos educacionais, suporte privilegiado para se recuperar os conhecimentos e técnicas consideradas fundamentais por uma sociedade em uma determinada época” (Bittencourt, 1993, p. 3). Conforme destaca Choppin (2004), o livro didático possibilita múltiplas análises, revelando suas especificidades e dimensões históricas, sendo uma de suas funções, a ideológica e cultural, atuando como veículo de transmissão de valores e representações sociais. Nesse sentido,
O livro didático não é um simples espelho: ele modifica a realidade para educar as novas gerações, fornecendo uma imagem deformada, esquematizada, modelada, frequentemente de forma favorável; as ações contrárias à moral são quase sempre punidas exemplarmente; os conflitos sociais, os atos delituosos ou a violência cotidiana são sistematicamente silenciados. E os historiadores se interessam justamente pela análise dessa ruptura entre a ficção e o real, ou seja, pelas intenções dos autores. (Choppin, 2004, p. 557)
Outra questão importante nesta análise é destacar a relevância da iconografia presente nessas obras, pois as ilustrações não apenas complementavam a leitura, mas também se articulavam diretamente ao texto, permitindo que a criança se identificasse com o ambiente escolar representado. Por meio dessas imagens, o aluno podia reconhecer-se no espaço e no tempo retratados, especialmente na figura do estudante uniformizado, símbolo da conformação ao modelo de disciplina e pertencimento proposto pela cultura escolar fascista.
A fim de examinar essas imagens, adotou-se a perspectiva metodológica de Didi-Huberman (2023), que compreende a imagem como um sintoma, isto é, como um elemento que ultrapassa a mera representação e revela contradições, fissuras e tensões do contexto em que foi produzida. Nessa abordagem, não há um sentido único para a imagem, mas múltiplas interpretações possíveis, capazes de evidenciar o controle estatal fascista. Assim, a ideia de montagem, proposta pelo autor, torna-se fundamental: ao justapor imagem, texto, contexto histórico e legislação educacional, é possível compreender como as ilustrações dialogam entre si e constroem sentidos que reforçam e tensionam os valores e práticas da cultura escolar fascista.
As políticas educacionais no fascismo italiano
Para compreender os usos do livro didático, é necessário situá-lo no contexto do universo escolar, analisando as relações que influenciam e redefinem sua função, sendo fundamental o exercício de identificar as políticas educacionais que integraram esse processo. Segundo Dognini (2023), a primeira reforma a ser realizada com a instauração do fascismo na Itália foi a Reforma Gentile anunciada por meio do Decreto Real N.º 1054[1], de 6 de maio de 1923, que consistiu na instauração de um sistema de ensino alinhado ao fascismo, sistematizando um padrão de educação para a Itália, na intenção de construir “um novo homem italiano”. Giovanni Gentile, um intelectual italiano, foi um dos principais responsáveis pela reforma e foi convocado por Mussolini para assumir o cargo de Ministro da Instrução Pública, cargo que ocupou entre 1922 e 1924 (Carmo e Silva, 2019). A reforma estabeleceu as disciplinas a serem ministradas, as normas para professores, carga horária e conteúdos das aulas, funcionando como uma base e direcionamento da educação fascistas.
Além de aspectos técnicos, a reforma também implementou o ensino religioso católico no currículo das escolas primárias e a obrigatoriedade das aulas serem ministradas na língua italiana (considerada oficial pelo Estado). E, complementando a reforma, ocorre a criação do programa curricular de 1923 por meio do Decreto Real N.º 2185, de 1 de outubro de 1923, em que as normas acerca do ensino primário foram estabelecidas, com direcionamentos específicos sobre materiais, móveis, livros e os conteúdos das disciplinas escolares e a forma de ensiná-los aos estudantes. Esses aspectos constituíam o novo projeto educacional nacionalista do Estado. Segundo Bianchini (2019) a escola ocupava um dos eixos centrais na construção do “italiano novo”: “O resultado foi a criação de espaços escolares que não eram apenas lugares de instrução, mas também lugares de culto político, nos quais o fascismo exercia uma constante pressão ideológica sobre os alunos” (p. 137).
Um impacto também significativo no setor educacional foi a intensa produção de materiais voltados aos italianos no exterior. Desde a década de 1920, o governo já enviava livros didáticos e outros recursos escolares para instituições étnicas italianas em diversos países. No entanto, com a ascensão do fascismo, essa prática foi ampliada e sistematizada, uma vez que o regime passou a ver esses materiais como instrumentos essenciais para a formação do “italiano novo”. Assim, mesmo aqueles que viviam fora da Itália deveriam ser educados segundo os valores fascistas, mantendo lealdade ao Estado, a Mussolini e à ideia de pertencimento à nação italiana (Luchese, 2013). Nesse contexto, foram criados órgãos específicos para coordenar esse projeto, como a Direção-Geral dos Italianos no Exterior e Escolas, sob administração de Piero Parini, responsável por organizar o envio de professores italianos, supervisionar as instituições étnicas e distribuir livros e materiais didáticos alinhados à doutrina fascista (Luchese, 2013). Dessa forma, a política educacional ultrapassava as fronteiras territoriais italianas, estendendo a influência do regime e reforçando sua concepção de império italiano.
Outra mudança importante na educação da Itália fascista foi a política do Livro Único. Segundo Colin (2010), entre 1928 e 1929, Giuseppe Belluzzo assumiu o Ministério da Instrução Pública e implementou a política do Livro Único, que foi de fato executada durante a gestão de Balbino Giuliano (1929-1932). Essa política foi instituída pelo Decreto-Lei de 7 de janeiro de 1929, que determinou a obrigatoriedade do uso de livros didáticos de todas escolas italianas fossem distribuídos pelo Estado e aprovados pela Comissão Ministerial para os Livros Didáticos. Além disso, o livro era impresso e vendido pelo Estado, garantindo que o Ministério da Instrução Pública fosse responsável “pela fabricação dos volumes, através da Libreria dello Stato e manter o preço fixado pelo Estado”[2] (Colin, 2010, p. 70). Cabe ressaltar a contradição dessa política dita de um livro único, visto que no decreto era colocado que os livros de “todas as escolas primárias públicas e privadas a partir do ano letivo de 1930-1931; após três anos, poderia ser substituído ou reeditado em uma versão revista e corrigida”[3] (Colin, 2010, p. 7), assim, existiram várias edições, com autores, ilustradores e conteúdos diferentes, por exemplo o livro único da segunda série escolar que analisamos as obras de 1930, 1933 e 1938 ao longo deste artigo.
De acordo com Moon (2015), nos dois primeiros anos do ensino primário, o ensino era ministrado utilizando um único volume de livro didático, que consistia em um material de leitura, enquanto nos outros anos, da terceira à quinta série, os alunos usavam dois tipos de livros didáticos: o Letture (Leitura) para aulas de língua e literatura, e o Sussidiari (Auxiliar) para outras disciplinas, como História, sendo organizado em seções para cada assunto. Dessa forma, os alunos possuíam o livro único de leitura e o livro único das disciplinas escolares de cada série escolar, ou seja, havia vários “livros únicos”.
É possível observar também o significativo investimento financeiro realizado pelo Estado fascista no setor educacional, evidenciado pela alta qualidade dos materiais didáticos produzidos que eram impressos coloridos, com numerosas ilustrações e elementos destinados a atrair o público infantil. Segundo Moon (2015, p. 47), “as cores vivas nas páginas, as fontes estilizadas e as ilustrações chamativas são impressionantes e de uma qualidade melhor do que a de muitos livros escolares anteriores”. Essa atenção à materialidade do livro revela, conforme aponta Chartier, que
Compreender as razões e os efeitos dessas materialidades (por exemplo, em relação ao livro impresso o formato: as disposições da paginação, o modo de dividir o texto, as convenções que regem a sua apresentação tipográfica, etc.) remete necessariamente ao controle que editores ou autores exercem sobre essas formas encarregadas de exprimir uma intenção, de governar a recepção, de reprimir a interpretação. (Chartier, 1998, p. 35)
A cultura escolar fascista representada nos livros de leitura
As histórias que compõem os livros de leitura são narradas sob a perspectiva de crianças no cotidiano escolar e familiar da Itália na década de 1930. Esta estratégia de narrativa era utilizada de forma a aproximar a criança do conteúdo ao trazer histórias sobre elementos que faziam parte de sua realidade, família, amigos, natureza, escola; ao mesmo tempo que inseriu elementos do fascismo italiano com aspectos do nacionalismo, o incentivo a militarização, o culto a guerra, a Mussolini, ao rei Vittorio Emanuele III e ao papa.
Figura 1. Capa dos livros didáticos 1930, 1933 e 1938

Fonte: Il libro della seconda classe de 1930, 1933 e 1938.
No livro Il libro della seconda classe (Belardinelli-Bucciarelli, 1930) a narrativa central ocorre em torno da história de dois irmãos, Piero um menino entre 7 a 8 anos, está na segunda série se preparando para ser membro da juventude fascista Opera Nazzionale Balilla (ONB), e Lauretta que também está na escola e faz parte da Piccole Italiane (juventude fascista para meninas).
A história “Piero va a scuola” (Belardinelli-Bucciarelli, 1930, p. 8-9), apresenta o primeiro dia de aula de Piero, ele está começando a segunda série do ensino primário:
Piero vai à escola
Piero entra na sala da segunda série.
Ele cumprimenta a professora; a conhece porque esteve com ela também na primeira série. A professora recebe Piero com um sorriso; então lhe diz:
—Você cresceu muito durante as férias; este ano você não poderá ficar na primeira carteira. Aqui está o seu lugar ali, na quarta fila.
E Piero se senta contente. Está com muita pressa de crescer!
Enquanto os colegas se acomodam nas carteiras, Piero olha para a nova sala de aula.
É bonita, é organizada; ele ficará muito bem ali.
Numa parede, acima da cátedra, vê o Crucifixo, o retrato do Rei e o retrato do Duce.
Detém os olhos no retrato do Duce e sorri.
Pensa em um belo uniforme com a camisa preta, que a mãe já preparou para ele. (Belardinelli-Bucciarelli, 1930, p. 8-9; tradução nossa)[4]
A partir dessa narrativa, percebe-se a intenção de representar a escola fascista como um espaço harmonioso, com uma professora atenciosa e estudantes obedientes e felizes por estarem estudando. Segundo Horta (2009), o fascismo elimina a separação entre vida civil e militar. Nesse contexto, o trecho em que Piero menciona pensar no uniforme explicita o desejo de se tornar balilla, isto é, de integrar a juventude fascista, uma atitude apresentada de forma a estimular a identificação e a projeção dos meninos em se tornarem indivíduos militarizados e alinhados ao regime. Outro aspecto relevante é a composição da sala de aula, que, além das carteiras, inclui elementos simbólicos da tríade que sustentava a base ideológica do fascismo: o retrato do Duce, o retrato do rei e o crucifixo, representando a coexistência entre fascismo, monarquia e catolicismo.
Sob a perspectiva da função referencial de Choppin (2004), segundo a qual o livro didático “constitui o suporte privilegiado dos conteúdos educativos, o depositário dos conhecimentos, técnicas ou habilidades que um grupo social acredita que seja necessário transmitir às novas gerações” (p. 553), o material busca evidenciar que as mudanças promovidas pela reforma e pelo novo programa curricular de 1923 estavam sendo efetivamente aplicadas. Isso se manifesta na presença dos retratos e do crucifixo, elementos listados entre os materiais escolares considerados essenciais para a sala de aula. Assim, tais objetos são incorporados à cultura escolar fascista e ressignificados: ainda que alguns, como o crucifixo, já estivessem presentes no ambiente educacional anterior ao regime, passam a expressar novas relações, como a consolidação do catolicismo enquanto religião oficial do Estado fascista, reforçando, desse modo, os valores do “italiano novo” e a construção de um ideal de nação (Horta, 2023). Cabe destacar, ainda, que a presença da religião é marcante nos três livros analisados. Cada volume apresenta uma seção dedicada ao ensino da religião católica, composta por orações e passagens bíblicas que sucedem as narrativas do livro de leitura, o que evidencia a centralidade do catolicismo na formação moral das crianças.
Na continuidade dessa narrativa, observam-se rituais característicos da cultura escolar fascista que compõem e ambientam as cenas das aulas, nas quais são realizadas uma oração e a saudação fascista. Esses elementos visam apresentar a ordem, o respeito e a naturalização do fascismo no ambiente escolar, em que a saudação fascista, inclusive, era de realização obrigatória (Horta, 2009). Podemos observar isso na sequência da história “Piero va a scuola”:
A professora faz sinal para que se levantem e os organiza para a oração. Com o corpo bem ereto, as mãos juntas e os olhos voltados para o Crucifixo, recitam devotamente o "Pai Nosso". Depois da oração, a professora ordena a saudação. As crianças estendem o braço em direção aos retratos do Rei e do Duce e saúdam ao estilo romano. Depois se sentam. (Belardinelli-Bucciarelli, 1930, p. 9; tradução nossa)[5]
Segundo Julia (2001),
Poder-se-ia descrever a cultura escolar como um conjunto de normas que definem conhecimentos a ensinar e condutas a inculcar, e um conjunto de práticas que permitem a transmissão desses conhecimentos e a incorporação desses comportamentos; normas e práticas coordenadas a finalidades que podem variar segundo as épocas (finalidades religiosas, sociopolíticas ou simplesmente de socialização). (Julia, 2001, p. 10)
Nesse sentido, a cultura escolar não se encontra isolada da sociedade, mas está em constante interação com ela, manifestando resistências, tensões e também apoios em relação às dinâmicas sociais e políticas de cada período histórico.
E, no contexto do regime fascista, essa relação torna-se particularmente evidente, uma vez que a escola é utilizada como instrumento de formação ideológica e moral. O objetivo era “forjar uma nova consciência cívica por meio da cultura nacional, da disciplina do corpo e por uma direção das consciências” (Julia, 2001, p. 23), o que revela a tentativa de moldar o comportamento e o pensamento das novas gerações de acordo com os ideais do Estado totalitário. Assim, ao estudar a cultura escolar fascista, é fundamental considerá-la em articulação com a cultura política, religiosa e social da época, pois é nessa relação que se compreendem os mecanismos de controle, as práticas pedagógicas e as estratégias do regime fascista.
A juventude fascista
No livro de 1933, a história “Verso la scuola” possui o mesmo estilo de narrativa do livro anterior, mas agora com a história dos dois irmãos, Mariolina e Bruno, que frequentam a escola italiana e almejam ocupar seu lugar na juventude fascista,
Rumo à escola
Mas você se lembra do que o papai sempre repete para você? Não basta ter oito anos e uma camisa preta para ser um bom Balilla. É preciso algo mais...
—Sim, eu sei: é preciso o coração e...
Basta isso. Quem tem coração e sentimentos de Italiano já é Balilla.
—E eu? —perguntou Mariolina.
—O mesmo vale para você: quem tem coração e sentimentos de Italiana já é Piccola Italiana.
Mas, entendamo-nos: tudo o que vocês dizem e fazem deve ser digno de louvor, porque as ações devem corresponder às palavras e as palavras aos sentimentos. (Tanzarella, 1933, p. 9-10; tradução nossa)[6]
Neste diálogo da história percebe-se o incentivo familiar para que as crianças façam parte da juventude fascista, descrevendo que fazer parte dessa organização como algo valoroso, que deve ser merecido, exaltando valores de obediência e de nacionalismo.
No livro de 1938, a narrativa é construída em torno dos irmãos Meuccio e Lunella, sendo este livro com um foco maior em mostrar as vivências familiares e como se articulam ao ideário fascista de diferentes maneiras, especialmente por meio da associação com a juventude fascista. A histórias tem como foco a própria Itália, destacando o nacionalismo, o valor do trabalho e a importância da família, elementos que simbolizam a formação do “italiano novo”.
Na história intitulada “Alza-Bandiera” é apresentado o seguinte trecho,
Mas, em breve, todos estão prontos e se alinham, em perfeito quadrado, no pátio.
–Hastear a bandeira! –ordena o Comandante.
Os Balilla se posicionam em atenção, enquanto outros três toques de trombeta se espalham pelo vale. A bandeira desliza ao longo do mastro e para no topo, com suas três cores desdobradas ao vento. Cem e cem bocas cantam:
Primavera dos povos
Roma retorna aos seus destinos...
Mussolini quis assim
Seu sonho já está em marcha.
O sol, que estava escondido atrás de uma nuvenzinha, volta a brilhar no azul. (Petrucci, 1938, p. 6-7; tradução nossa)[7]
Esta juventude fascista mencionada nas histórias, fazia parte de um dos projetos de composição da escola fascista para a formação das futuras gerações italianas. A ONB foi a organização juvenil que se manteve entre 1926 e 1937 na Itália instituída pela lei federal Lei N.º 2247, de 3 de abril de 1926, sendo esta responsável por ofertar a educação física e educação moral dos jovens (Stellavato, 2008). A ONB era controlada pelo Ministério da Instrução Pública[8] e sob supervisão de Benito Mussolini, que nomeava o presidente e os conselheiros responsáveis pela organização (Giansanti, 2017).
A ONB era estruturada de acordo com uma divisão por idade e sexo, em que meninos de 6 a 13 anos constituíam os balilla e as meninas da mesma idade eram da piccole italiane; os meninos de 14 a 18 anos integravam os “avanguardisti”, e as meninas faziam parte da giovani italiane (Rosa, 2009). Já a divisão dos figli della lupa, que agrupava crianças de seis a oito anos, foi criada em 1933, a fim de abranger o máximo possível de estudantes e iniciá-los militarmente mais cedo.
Outro aspecto frequentemente reforçado nos livros, e que fazia parte da cultura escolar da época, é o uso do uniforme. Mais do que uma simples exigência normativa, o uniforme assumia um papel simbólico fundamental: transmitia um senso de coletividade, reforçava a identidade de pertencer à juventude fascista e promovia a homogeneização dos estudantes. Nos livros de leitura, o uniforme da juventude fascista é apresentado como um elemento desejado pelas crianças, algo pelo qual elas ansiavam, pois simbolizava pertencimento à nação e adesão aos valores propagados pelo regime. A imagem de estudantes uniformizados, formando um grupo coeso, remetia diretamente à lógica fascista: um único corpo, um fascio, no qual o indivíduo se dilui em favor da coletividade e da fidelidade ao Estado. Assim, o uniforme consiste em um “micro universo infanto-juvenil, a estrutura de poder do Fascismo, baseada no autoritarismo, no militarismo e na hierarquia” (Rosa, 2009, p. 635).
Dessa forma, os rituais escolares, frequentemente descritos nos textos e presentes nas ilustrações, evidenciam uma cultura escolar própria do regime fascista, na qual práticas como orações e saudações fascistas eram realizadas diariamente e integravam a rotina escolar.
A relação igreja, estado fascista e monarquia
A relação entre a Igreja Católica e o Estado fascista foi marcada por uma série de concessões e acordos que redefiniram os espaços de atuação de ambas as instituições dentro da sociedade italiana (Horta, 2009). Com o controle total da educação pelo Estado e a criação da Juventude Fascista, o regime de Mussolini passou a ocupar áreas antes dominadas pela Igreja, o que levou à necessidade de conciliações políticas e simbólicas. Essa aproximação consolidou-se especialmente após o Tratado de Latrão de 1929, que reconheceu a soberania do Vaticano e estabeleceu o ensino da religião católica nas escolas públicas, reforçando a aliança entre fé e nação (Horta, 2023). Nos livros didáticos, essa articulação é perceptível: a seção de religião, escrita por monsenhores e aprovada por membros do clero, continha ilustrações, orações e ensinamentos morais voltados à formação cristã, integrando-se à narrativa patriótica e disciplinadora da escola fascista. Na história “Il Capo della Chiesa” (Belardinelli-Bucciarelli, 1930, p. 59), o Papa é descrito como “o bom Pastor, que chama ao seu redor as suas ovelhas”, “o Vigário de Cristo na terra” e “o Chefe da Igreja e de todos os sacerdotes”, reforçando a ideia de autoridade e obediência, valores igualmente centrais ao regime. Já em “Il Pontefice” (Tanzarella, 1933, p. 81), o Papa é apresentado como “o sucessor de São Pedro, que foi estabelecido por Jesus Cristo como fundamento da Igreja Católica”, e como “soberano na Cidade do Vaticano”, evidenciando como a cultura escolar fascista incorpora a religião católica para promover a formação do projeto de “italiano novo” almejado pelo regime.
Figura 2. Papa (1930)

Fonte: Belardinelli-Bucciarelli (1930, p. 59).
Nos livros didáticos produzidos durante o regime fascista, a interação entre Estado, Igreja e Monarquia é representada de forma simbiótica, expressando a relação entre os poderes político, religioso e nacional na formação moral das crianças. A exaltação ao rei Vittorio Emanuele III é recorrente, por exemplo, no texto “Il 11 de noviembre” (Tanzarella, 1933, p. 43), o aniversário do monarca é celebrado como uma data de festa nacional, o rei é chamado de “Vittorio, o Vitorioso”, pois “a última grande guerra foi combatida e vencida sob seu alto comando”. Essa narrativa reforça a imagem do rei como líder heróico e protetor da nação. De forma complementar, o trecho de 1938 (Petrucci, 1938, p. 114) reforça a sacralização da figura real, ao afirmar que “sob o reinado de Vittorio Emanuele III, realizou-se a conciliação entre o Estado e a Igreja, e a Itália finalmente teve seu Império colonial”. Assim, a narrativa escolar não apenas glorifica o monarca, mas também legitima a relação entre monarquia e fascismo.
Figura 3. O Rei Vittorio Emanuelle III (1930)

Fonte: Belardinelli-Bucciarelli (1930, p. 23).
Nos livros de leitura destinados às escolas primárias durante o regime fascista, a figura de Benito Mussolini é apresentada como símbolo máximo de heroísmo, coragem e liderança, sendo exaltada como o pilar da nova Itália. Em “L’Italia nuova” (Petrucci, 1938, p. 116), o texto descreve Mussolini como um herói, que, ao perceber a ameaça à vitória italiana após a guerra, conduziu os jovens à decisão de “marchar sobre Roma”. Essa narrativa constrói a imagem do Duce como o salvador da pátria e o restaurador da ordem nacional. De modo semelhante, no trecho de 1933 (Tanzarella, 1933, p. 23), a Marcha sobre Roma é representada como um momento glorioso em que “os fascistas, com suas camisas negras, entram em Roma e impõem respeito a todos”, enquanto o próprio Mussolini proclama: “Fora com todos os maus italianos que não sabem fazer as coisas direito. Agora eu cuido de tudo e coloco tudo em ordem! Viva a Itália!”. Essas representações revelam a construção de um culto à personalidade do Duce, associando-o à força, à disciplina e ao patriotismo, valores centrais da cultura escolar fascista.
Figura 4. A representação de Mussolini (1933)

Fonte: Tanzarella (1933, p. 22).
A partir disso, a análise dos livros didáticos busca compreender que a cultura fascista requer considerar que esses materiais não apenas refletem essa cultura, mas também a compõem e a perpetuam. Como observa Magalhães (2015, p. 139), “existe uma cultura escolar, composta por rituais, gestualidades, processos de socialização e formas de formação, que nem sempre está explicitamente registrada nos manuais, mas que tende a ser, direta ou indiretamente, homologada, contextualizada e metaprojetada por eles”. Sendo assim, os livros didáticos fazem parte do processo de construção e representação do fascismo, inscrevendo e legitimando práticas escolares que orientam o comportamento e a percepção dos estudantes.
A cultura escolar fascista pode ser compreendida como um campo de disputas simbólicas. Segundo Luchese (2013, p. 6), as escolas e os livros promoviam a identificação entre o ser italiano e a simbologia fascista, difundindo o sentimento de italianidade e promovendo a fascistização de seus leitores. Essa instrumentalização da escola demonstra a estratégia central de Mussolini para perpetuar o fascismo na Itália: trabalhar com as novas gerações, consolidando valores de obediência, disciplina e nacionalismo (Bertonha, 2017). Dessa forma, a cultura escolar fascista não se limita ao conteúdo textual dos livros didáticos, mas envolve práticas, imagens e rituais que, juntos, constituem um sistema de tentativa de formação desse “italiano novo”.
Considerações finais
Os livros de leitura analisados neste estudo permitem identificar uma lógica específica de produção do livro didático na década de 1930, durante o período fascista na Itália. A comparação entre as três obras evidencia uma estrutura semelhante tanto no aspecto editorial quanto na organização e temática das narrativas. Tal padronização revela a efetiva aplicabilidade da Lei do Livro Único de 1929, que contribuiu para a manutenção de um modelo uniforme de livro didático a partir da inspeção e do controle exercidos pela Comissão Ministerial para os Livros Didáticos. Dessa forma, ainda que cada obra apresentasse autores, ilustradores e personagens distintos, a proximidade entre os conteúdos confirma o esforço do regime em estabelecer uma formação escolar homogênea e ideologicamente alinhada.
A análise desenvolvida neste estudo não esgota as possibilidades de pesquisa sobre o tema; ao contrário, abre caminhos para novas investigações que possuam a cultura escolar como eixo central para compreender a história do fascismo italiano. Os livros de leitura permitem entender o que seria a rotina escolar ideal pelo regime, revelando valores considerados fundamentais, como a obediência, o culto a Mussolini, ao rei e à nação. Soma-se a isso a forte presença da juventude fascista Opera Nazzionale Balilla (ONB) e à Igreja Católica no cotidiano escolar, expressa pelo incentivo à militarização, o uso do uniforme da organização, às orações, pela valorização do Papa e pela inclusão, ao final de cada volume, de uma seção dedicada à religião católica. Esses elementos reafirmam não apenas os acordos firmados entre a Igreja e o regime fascista, mas também a instituição do catolicismo como religião oficial da Itália.
A partir dos livros, é possível ainda refletir sobre a representação da Itália elaborada pela própria produção fascista, que a apresentava como uma nação forte, disciplinada e vitoriosa. Tais imagens integravam o projeto de formação do “novo italiano”, especialmente por meio da juventude fascista, que deveria incorporar, desde cedo, os valores e comportamentos idealizados pelo Estado.
Portanto, compreender os processos e as relações presentes nesses livros de leitura permite aprofundar o entendimento sobre a história da educação no período fascista, revelando como a produção didática e os rituais escolares contribuíam para a construção e difusão da cultura escolar fascista.
Financiamento
PPGH-UFMG. La participación de la autora en el XVI Congreso Iberoameicano de Historia de La Educación fue financiada por el Departamento do Programa de Pós-Graduação em História de la Universidade Federal de Minas Gerais.
Conflito de interesses
La autora no tiene conflictos de interés que declarar.
Referências
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* Izabelle Seoldo Marques é mestre em História pelo Programa de Pós-Graduação em História, na linha de História e Culturas Políticas, e graduada em História pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).
[1] Localizado no acervo da Gazzetta Ufficiale, o jornal oficial em que eram publicadas e divulgadas as leis e decretos na Itália.
[2] “La charge de la fabrication des volumes, par l’entremise de la ‘Librairie de l’État’; le prix était fixé par l’État” (Colin, 2010, p. 70).
[3] “Toutes les écoles primaires publiques et privées à partir de l’année 1930-1931; au bout de trois ans, il pouvait être remplacé, ou bien réédité dans une version revue et corrigée” (Colin, 2010, p. 70).
[4] Piero va a scuola
Piero entra nell’aula della seconda classe.
Saluta la maestra; la conosce perché è stato con lei anche nella prima classe.
La maestra accoglie Piero con un sorriso; poi gli dice:
— Sei cresciuto molto durante le vacanze; quest’anno non potrai stare nel primo banco. Ecco il tuo posto là, nella quarta fila.
E Piero si siede contento. Ha tanta fretta di essere grande!
Mentre i compagni si dispongono nei banchi, Piero guarda la nuova classe.
È bella, è ordinata; ci starà tanto bene.
In una parete, al di sopra della cattedra, vede il Crocifisso, il ritratto del Re e il ritratto del Duce.
Ferma gli occhi sul ritratto del Duce e sorride.
Pensa a una bella divisa con la camicia nera, che la mamma ha già preparato per lui. (Belardinelli-Bucciarelli, 1930, p. 8-9)
[5] La maestra fa cenno che si alzino e li fa disporre per la preghiera. Con la persona ben diritta, con le mani giunte e gli occhi rivolti al Crocifisso, recitano devotamente il "Padre nostro". Dopo la preghiera, la maestra ordina il saluto. I fanciulli tendono il braccio verso i ritratti del Re e del Duce e salutano romanamente. Poi si siedono. (Belardinelli-Bucciarelli, 1930, p. 9)
[6] Verso la scuola
Ma ti ricordi quello che ti ripete sempre il babbo? Non basta avere otto anni e una camicia nera per essere un buon Balilla. Ci vuole qualche altra cosa...
—Sì, lo so: ci vuole il cuore e...
Basta quello. Chi ha cuore e sentimenti d’Italiano è già Balilla.
—E io? —domandò Mariolina.
—Lo stesso anche per te: chi ha cuore e sentimenti di Italiana è già Piccola Italiana.
Però, intendiamoci: anche tutto quello che dite e che fate dev’essere degno di lode, perché le opere debbono corrispondere alle parole e le parole al sentimento. (Il libro della seconda classe, 1933, p. 9-10).
[7] Ma ben presto son tutti pronti e si schierano, in perfetto quadrato, sul piazzale.
–Alza-bandiera! –ordina il Comandante.
I Balilla si piantano sull’attenti, mentre altri tre squilli di tromba si diffondono per la valle.
La bandiera scorre lungo il pennone e si ferma in vetta, coi suoi tre colori spiegati al vento.
Cento e cento bocche cantano:
Primavera delle genti
torna Roma ai suoi destini...
l’ha voluto Mussolini
il suo sogno è in marcia già.
Il sole, che si era nascosto dietro una nuvoletta, torna a splendere nell’azzurro. (Petrucci, 1938, p. 6-7)
[8] O Ministério da Instrução Pública foi renomeado posteriormente por Ministério da Educação Nacional.