A representatividade feminina nos discursos da revista Escola, Pará, Brasil (1934-1935)
Cilene Maria Valente da Silva*
Secretaria de Educação do Estado, Brasil.
valentecilene@gmail.com
https://orcid.org/0000-0002-3231-2338
Lorena Bischoff Trescastro*
Universidade Federal do Pará, Brasil.
lbtrescastro@ufpa.br
https://orcid.org/0000-0002-6484-0178
Recibido: 4 de diciembre de 2025 | Aceptado: 10 de diciembre de 2025
Resumo
Este artigo tem por objetivo discutir a representatividade feminina a partir da análise de conteúdo das edições da revista Escola, publicadas em 1934 e 1935. O corpus de análise foi constituído de quatro edições da revista Escola, publicadas na década de 30, no estado do Pará, Brasil. Como procedimentos metodológicos, utilizou-se a pesquisa documental e a análise de conteúdo para identificar tópicos discursivos de autoras dos artigos indicadores das representações femininas no periódico. Na análise, evidenciou-se a presença feminina de normalistas, professoras e diretoras de escola, cujos artigos trazem contribuições e reflexões sobre as designações do movimento renovador na educação, a crítica pedagógica e a divulgação das ideias da escola nova no Pará. A revista Escola, como um instrumento de inovação pedagógica da educação paraense na época, trazia vozes femininas, indicando o papel das mulheres na educação paraense, embora isso nem sempre fosse comum, na época, em outros setores da sociedade.
Palavras-chave
História da educação, Escola Nova, revista Escola, representatividade feminina.
La representación femenina en los discursos de la revista Escola, Pará, Brasil (1934-1935)
Resumen
Este artículo analiza la representación femenina a través del análisis de contenido de las ediciones de la revista Escola, publicadas en 1934 y 1935. El corpus analizado consistió en cuatro ediciones de la revista Escola, publicadas en la década de 1930 en el estado de Pará, Brasil. Se emplearon la investigación documental y el análisis de contenido como procedimientos metodológicos para identificar los temas discursivos de los autores de los artículos que evidenciaban la representación femenina en la publicación. El análisis reveló la presencia de estudiantes, docentes y directoras de escuela cuyos artículos ofrecen aportaciones y reflexiones sobre las denominaciones del movimiento de reforma educativa, la crítica pedagógica y la difusión de las ideas de la Nueva Escuela en Pará. La revista Escola, como instrumento de innovación pedagógica en la educación de Pará de aquel entonces, dio voz a las mujeres, lo que evidencia el papel de la mujer en la educación de Pará, lo que no era común en otros sectores de la sociedad en ese momento.
Palabras clave
Historia de la educación, Nueva Escuela, revista Escola, representación femenina.
Female representation in the discourses of the magazine Escola, Pará, Brazil (1934-1935)
Abstract
This paper aims to discuss female representation through a content analysis of the 1934 and 1935 editions of Escola magazine. The corpus of analysis consisted of four issues of Escola magazine, published in the 1930s in the state of Pará, Brazil. Methodological procedures used documentary research and content analysis to identify discursive topics of the authors of the articles that indicate female representation in the periodical. The analysis highlighted the female presence of normal teachers, teachers, and school principals, whose articles offer contributions and reflections on the designations of the Renovation Movement in education, pedagogical critique, and the dissemination of the ideas of the New School in Pará. Escola magazine, as an instrument of pedagogical innovation in Pará's education at the time, featured female voices, highlighting the role of women in Pará's education, although this was not always common in other sectors of society at the time.
Keywords
History of education, Escola Nova, Escola magazine, female representation.
Introdução
O presente artigo tem por objetivo discutir a representatividade feminina a partir da análise de conteúdo das edições da revista Escola, publicadas em 1934 e 1935. Para tanto, o estudo focaliza a representatividade feminina presente nas edições da revista Escola —a revista do professorado do Pará—, destacando seu papel inovador na difusão dos pressupostos da Escola Nova no estado do Pará, Brasil. A periodização do estudo compreendeu os anos de 1934 e 1935.
A revista Escola foi uma publicação oficial do Estado do Pará, destinada ao segmento envolvido diretamente com o processo educativo, quais sejam: professores, diretores e técnicos. A revista Escola, publicada na década de 1930, foi uma criação com o propósito de melhorar a educação no Pará. Trata-se de um periódico oficial, à época, vinculado administrativa e financeiramente à Diretoria Geral da Educação e Ensino Público do Estado do Pará.
A investigação está fundamentada nos estudos de Burke (2004, 2008), Certeau (2014), Chartier (1991), Julia (2001) e Le Goff (2013), de cunho documental, busca-se compreender as representações das práticas e as práticas da representação, no sentido de identificar códigos, finalidades e destinatários das representações que circularam nas narrativas da revista Escola, neste trabalho, mais especificamente, buscou-se investigar a representatividade feminina, sua natureza e intencionalidades.
A metodologia utiliza pesquisa documental organizada em três momentos: problematização da presença feminina na revista; identificação dos tópicos discursivos nos artigos publicados por mulheres na revista; e análise das intencionalidades discursivas das autoras com a publicação dos artigos. Da análise dos dados, pode-se inferir que, em seu conjunto, os artigos publicados pelas autoras na revista Escola concentraram-se na difusão de práticas pedagógicas fundadas nos pressupostos teóricos da Escola Nova.
O artigo está organizado da seguinte maneira: a primeira seção trata da introdução, na qual foram apresentados, resumidamente, o tema, o objeto, a metodologia e os autores que contribuem na discussão dos dados. A segunda seção é referente aos aportes teórico-metodológicos da pesquisa documental com os fundamentos da história cultural. Na terceira seção, consta a análise dos artigos da revista Escola, destacando a representatividade feminina, seus discursos e intencionalidades, contextualizada no modelo pedagógico da Escola Nova da década de 1930. Por fim, são feitas as considerações finais e listadas as referências.
Interfaces entre a história cultural e a Imprensa de Educação e Ensino
A perspectiva teórico-metodológica da história cultural em interface com o estudo sobre a Imprensa de Educação e Ensino deu suporte para a realização desta investigação. Os fundamentos da história cultural, campo historiográfico mais evidente, principalmente, a partir das últimas décadas do século XX, reúne diferentes possibilidades de tratamento e abordagens temáticas. Como sugere sua denominação, trata-se do campo do saber historiográfico atravessado pela noção de cultura.
Ao explicar a história cultural, Burke (2008) dedica-se às diferenças, debates e conflitos das tradições compartilhadas em culturas inteiras, discutindo desdobramentos da história cultural que emerge no contexto da história que valoriza as dimensões da cultura. Conforme Burke (2008), essa abordagem não pode separar história e cultura, cujo enlace constitui campo de investigação da história cultural construído na trajetória de análise e mapeamento das práticas culturais e suas apropriações nas mais diversas sociedades.
A história cultural é tratada por Burke (2004) como um novo paradigma de pesquisa fundamentada nos estudos da teoria cultural e descreve o campo dos historiadores culturais como a preocupação com o simbólico e as interpretações. A história cultural se constitui em uma história em si e é o estudo sobre essa história que consiste no trabalho de investigação, a partir da descrição das diferentes tradições culturais, da localização espaço-temporal e do trabalho dos historiadores culturais (Burke, 2004).
O conceito de representação em relação à cultura material da imprensa educacional é relevante para a compreensão das práticas pedagógicas citadas e das intencionalidades discursivas dos artigos escritos por mulheres publicados na revista Escola, nos anos 1934-1935. Na investigação convém que se busquem outros elementos subjacentes que não são imediatamente identificáveis, tais como a representação das práticas. Compreender as práticas remete aos estudos de Certeau (2014), para quem as práticas culturais são definidas como maneiras de fazer que “constituem as mil práticas pelas quais usuários se reapropriam do espaço organizado pelas técnicas da produção sociocultural” (Certeau, 2014, p. 41). De modo que as fontes documentais, tais como os artigos publicados em periódicos, constituem os primeiros indícios do que pode vir a ser o objeto.
A história cultural, segundo Chartier (1991), é uma modalidade que busca compreender a produção de sentido das palavras, das imagens e dos símbolos. Além disso, procura fazer a reconstrução das práticas culturais em termos de recepção, de invenção e lutas de representações. Em seus estudos, o autor aborda as diferentes formas de apropriação de discursos, de textos verbais e não-verbais e da produção do sentido. Sendo que o sentido difere por influência das posições sociais ocupadas pelos sujeitos que as produzem e recepcionam. De modo que evidenciam certa dependência da vida cultural, que aparecem nas diferentes formas de apropriação, mediadas pela representação.
A opção pela abordagem se deve porque o estudo se insere na temática das representações e das práticas educacionais, mais especificamente, está relacionada com o recorte temático da imprensa de educação e ensino, a saber: a revista Escola, publicada no estado do Pará nos anos de 1934-1935. De acordo com Julia (2001), a cultura escolar se baseia nos seguintes elementos: espaço escolar específico, cursos e corpo profissional específico. De modo que é a partir desses aspectos que a cultura escolar produz imagens tanto mentais quanto materiais.
Para interpretar a imagem é imprescindível uma referência social. Assim, partilhar os referenciais culturais, a que a imagem faz menção, possibilita a relação necessária para que o sentido possa ser construído e a recepção seja realizada. A esse respeito, Le Goff (2013, p. 43) menciona a escrita como etapa decisiva para a memória e para a história, pois “não há sociedades sem história”.
Sobre a cultura histórica, o autor afirma que a cultura histórica não depende apenas das relações estabelecidas entre memória e história, presente e passado. A história é constituída no tempo e está ligada às diferentes concepções existentes na sociedade. Assim, entende-se que toda produção cultural deve ser analisada como parte do contexto histórico no qual foi produzida.
Para fins de contextualização, entende-se que a maneira de fazer a formação docente na primeira República, como mostrada na revista Escola, tende a refletir a produção cultural e a cultura educacional da época, marcada pelo ideário da Escola Nova, enquanto política de governo desencadeada pela Revolução de 1930.
No Brasil, a Escola Nova, ou o escolanovismo, se desenvolveu em meio ao processo de urbanização e expansão industrial, propagando a ideologia desenvolvimentista liberal, em que o Estado era colocado como principal responsável pela educação. O contexto dos anos 1930 foi um período marcado por conflitos de ordem política e social que acarretaram mudanças na mentalidade brasileira (Santos et al., 2006).
Com base nesses fundamentos, toma-se por pressuposto de que impressos educacionais, como a revista Escola, podem ser tomados como objeto de estudo e fonte de investigação de diferentes aspectos da história da educação. O corpus de análise foi constituído de quatro edições da revista Escola, publicadas na década de 1930, no estado do Pará, Brasil. Conforme Sá-Silva et al. (2009), um pesquisador deve utilizar documentos para extrair informações, investigar e examinar, usando técnicas apropriadas para o manuseio e a análise do documento.
Esses autores tratam da relevância dos documentos e das fontes primárias em pesquisas educacionais devido a qualidade de informações que podem ser extraídas e, assim, contribuir para a compreensão do objeto de estudo e sua contextualização histórica e sociocultural. Compreende-se por fontes primárias dados originais, a partir dos quais se tem a relação direta com os dados a serem analisados e por fontes secundárias aquelas que já foram trabalhadas por outros pesquisadores e são de domínio científico.
Como procedimentos metodológicos, utilizou-se a pesquisa documental e a análise de conteúdo para identificar tópicos discursivos e citação de mulheres (professoras, normalistas e diretoras de escolas) como autoras dos artigos indicadores das representações femininas no periódico. O desenvolvimento da pesquisa documental segue etapas e procedimentos, considerando a organização de informações a serem categorizadas e, depois de analisá-las, finalmente, elaborar as sínteses.
Nessa perspectiva, a investigação utiliza a imprensa Periódica Educacional como fonte e objeto para identificar a difusão, apropriação e circulação de ideias que constituem e refletem práticas culturais fundantes para a construção de uma nova racionalidade educacional na década de 1930. As edições na íntegra foram digitalizadas e estão disponíveis para acesso no acervo de obras raras da Biblioteca Pública Arthur Viana, em Belém, Pará.
Revista Escola. A revista do professorado do Pará (1934-1935)
O periódico educacional paraense Escola —revista do professorado do Pará— foi criado pela Diretoria Geral da Educação e Ensino Público do Estado do Pará, com a finalidade de melhorar a educação no Pará. A revista Escola foi uma publicação oficial do Pará, da década de 1930, século XX, com distribuição gratuita, que tratava do processo educativo e tinha por público-alvo professores, diretores e técnicos.
A revista Escola foi um periódico oficial, criado no governo estadual do General Magalhaes Barata, Interventor Federal da época. Enquanto ação de governo, a revista Escola servia para mostrar a renovação pedagógica e a modernização do ensino no Pará, estado situado ao norte do Brasil. Segundo Silva (2021, p. 93), esse periódico “funcionava como uma vitrine de modelos sobre a Escola Nova para o professorado do Pará”.
O periódico, publicado em Belém, Pará, nos anos de 1934 e 1935, se alinhava com o ideário escolanovista difundido no Brasil. Nas edições da Escola —a revista do professorado do Pará—, pode-se identificar um conjunto de publicações específicas sobre a Escola Nova, o que a caracteriza como um veículo para a propagação do ideário desse movimento nas escolas paraenses. Observa-se a presença de artigos, conferências, palestras, resenhas, resumo de livros e atividades pedagógicas, escritas por intelectuais, e professores, principalmente por normalistas e diretoras de escolas que atuavam nas escolas públicas paraenses na época.
A escolha da revista Escola como principal fonte documental da pesquisa se deu dada a importância do periódico para o projeto de renovação pedagógica com base nos pressupostos da Escola Nova no estado do Pará na década de 1930. Neste período, no Brasil, os periódicos educacionais tinham um papel relevante para a conquista de novos adeptos do escolanovismo, divulgando o método, os principais teóricos e as práticas escolares da escola ativa. De modo que, ao difundir os pressupostos do movimento escolanovista no Brasil, esses periódicos serviam à formação dos professores.
A pesquisa documental utiliza a imprensa periódica educacional como fonte e objeto histórico para identificar a difusão, apropriação e circulação de ideias que constituem e refletem práticas culturais fundantes para a construção de uma nova racionalidade educacional. Os quatro volumes da revista Escola que serviram de fonte documental foram acessados no repositório digital de obras raras da Biblioteca Pública Arthur Vianna, da Fundação Cultural do Estado do Pará, localizada em Belém, Pará, Brasil, portanto tratam-se de versões digitalizadas da revista Escola.
Discursos femininos na difusão do ideário da Escola Nova no Pará (1934-1935)
Nos periódicos, foram identificados tópicos discursivos de autoras dos artigos referentes às palestras pedagógicas. Esses tópicos são indicadores da representatividade femininas no periódico revista Escola. A tabela 1 apresenta uma síntese com a edição e o ano da revista, o nome da palestrante e autora do artigo, o título do artigo e os marcadores discursivos de representação.
Tabela 1. Palestras pedagógicas
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Edição/Ano da revista |
Palestrante e autora do artigo |
Título do artigo |
Marcadores discursivos de representação |
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v1, n.2, |
Hilda Vieira Diretora Escolar |
A Escola renovada e a Creança |
Organização da aula |
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v1, n.2, |
Palmira Lins de Carvalho |
Aplicação dos modernos |
Organização da aula |
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v1, n.2, |
Antonieta Freire Pontes |
Os processos da escola Ativa |
Descrição de prática educativa |
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v1, n. 3, |
Corina |
A Escola Nova e suas |
Escola moderna |
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v1, n. 3, |
Emilia Henderson Professora Normalista |
Centro de Interesse |
Decroly, |
Fonte: adaptado de Silva (2021, pp. 144-145).
Na análise, evidenciou-se a presença feminina na revista Escola, em 1934, com a publicação dos artigos assinados pelas palestrantes: Hilda Vieira, Palmira Lins de Carvalho, Antonieta Freire Pontes, Corina Lassance Cunha, Emilia Henderson Loureiro, Luzia Valente Lobo, Alexandrina Rangel de Castro Rocha, Julieta Góes das Dores, Ruth Pires dos Reis; e, em 1935, as palestrantes: Nina Ayres, Maria Leal Uchôa Martins, Maria da Graça Maroja, Almira B da Silva e Osmarina Pimenta, cujos artigos trazem contribuições e reflexões sobre as representações do movimento renovador na educação, a crítica pedagógica e a divulgação das ideias da escola nova no Pará.
Assim colocamos foco nos textos no sentido de abordar a maquinaria de representação traduzidas nas palestras pedagógicas, investigando suas temáticas e desvelando as matrizes das práticas construtoras das representações do movimento Escola Nova entre o professorado paraense. Dentre outros conceitos, de modo geral, os discursos trazem o significado da renovação pedagógica, com reflexões sobre o conceito da escola nova relacionado a capacidade de aprender a trabalhar em comunidade, proposições da importância da colaboração dos pais na escola, os centros de interesses e a resolver situações novas.
A seção “Palestras pedagógicas” se localizava nas primeiras páginas da Escola, vinha logo após o texto de abertura que era sempre a biografia do homenageado da edição. O homenageado da edição tinha sua foto estampada na capa, como se vê na figura 1. Ainda que as educadoras atuassem ativamente junto à instrução pública, havia um apagamento de suas imagens, os artigos traziam seus discursos, mas pouco se exibia suas imagens nas fotografias publicadas na revista Escola. Embora, as mulheres fossem protagonistas da difusão dos pressupostos da Escola Nova no Pará, com suas palestras e artigos publicados na revista, nenhuma delas foi homenageada, nem figurou na capa das edições da revista.
Figura 1. Capas das edições da revista Escola (1934-1935)

Fonte: Silva (2021, pp. 144-145).
As quatro edições da revista Escola contêm a modalidade de texto, “Palestras pedagógicas”, mas é a número 3, publicada em 1934, onde se concentra a maior quantidade de textos desse tipo. Isso se deve ao contexto histórico que antecede a um período eletivo na política paraense, que poria fim ao sistema de Interventoria com a eleição para governado. Dessa forma, esse número da revista serviu como uma vitrine das ações do governo para o desenvolvimento da educação do Pará, o que resulta ser essa edição que apresenta a maior quantidade de páginas.
Embora essa seja a única seção cuja denominação apareça em destaque no sumário, somente ao analisar os textos é possível perceber que há alguns que estão espalhados no corpo da revista, mas que são originários de palestras proferidas. Assim nem todos os textos que são originários de palestras estão agregados sobre essa denominação na organização do sumário da revista Escola, pois nem todos os artigos com esse teor apresentam a identificação “Palestras pedagógicas”. Nesse sentido, considerou-se para a análise o conceito de representações de Chartier, de que
Não existe história possível que não se articule às representações das práticas e as práticas das representações. Ou seja, qualquer fonte documental que for mobilizada para qualquer tipo de história nunca terá uma relação imediata e transparente com as práticas que designa. Sempre a representação das práticas tem razão, códigos, finalidades e destinatários particulares. Identificá-los é uma condição obrigatória para entender as situações ou práticas que são o objeto da representação. (Chartier, 1991, p. 16)
No que se referem aos títulos das palestras, se destaca a variedade de temas, que abordavam questões e aspectos de forma direta ou indireta e, assim, poderiam situar, contextualizar e fortalecer a compreensão e apropriação por parte dos professores acerca das mudanças que se pretendia consolidar na educação paraense. O intento era que os textos pudessem provocar efeitos, impactos quanto às mudanças educacionais pautadas para chamar atenção dos professores sobre questões que envolviam a finalidade, o conceito e a prática dos métodos escolanovistas. As temáticas pretendiam orientar os professores com pouca ou nenhuma experiência com o método fundamentado nos pressupostos da Escola Nova.
A estratégia era que essas palestras de forma prática pudessem responder à função de apropriação por parte dos professores e impulsionar a reformulação da ideia dos professores sobre a concepção de crianças no processo educativo, sobre como ensinar e sobre o que é conhecimento. Se analisarmos a última coluna da tabela 1, que contém o que denominamos marcadores de representação, eles se constituem a partir da leitura dos referidos textos e apresentam o destaque sobre o que os textos se debruçaram. De forma geral, os artigos guardam relação com os pressupostos do movimento Escola Nova, a saber agregamos assim: prática educativa da Escola Nova; valorização da formação; teóricos da pedagogia moderna, patriotismo, lapidação das crianças; os pais e o ensino das crianças.
Quanto à lapidação das crianças, na análise dos textos, é possível perceber que a escola nesse período pretendia a integração de todas as crianças, à medida que era o veículo para disseminar valores e normas sociais que estavam em sintonia com os indicativos do movimento Escola Nova. Assim, a criança se tornou o centro do trabalho escolarizado, tendo a escola o papel de desenvolver práticas educativas que com o aporte na visão (observação), ação (experimentação) na perspectiva de que as crianças pudessem elaborar seu próprio saber. Isso destaca o deslocamento das práticas de ensino nas escolas, que deixaram de ter por base ouvir e ver e fazer. E a criança passava a ser o centro do processo educativo. O aluno assim assumia um novo papel no processo de aprendizagem na escola (Vidal, 2007). Isso pode ser observado no seguinte excerto, extraído da revista em tela
A pedra de toque da escola nova e a creança. Ela a quer livre. Livre da passividade que tem vivido, a creança possui uma personalidade que deve ser respeitada. John Dewey preceitua que ela deve ser o ponto de partida o centro e o fim. Todo trabalho escolar e para dar-lhe desenvolvimento ajudar-lhe o crescimento. A creança tem mais necessidade de desenvolver suas capacidades que de acumular conhecimentos intelectuais, considerados um meio e não um fim na escola renovada, é este o ponto mais divergente entre escola nova e a clásica. (Escola 1[2], 1934).
O contexto histórico em que se desenvolveu o movimento Escola Nova prescindia um lugar em destaque para as crianças. A concepção de criança avançou para uma transformação simbólica, a se considerar que ela passou a ser concebida como o devir do futuro, sobretudo o futuro da nação, mesmo se sobrepondo às desigualdades sociais que se faziam presente na infância na época, o que se pode perceber nas palestras e no fragmento a seguir,
O fim da escola renovada é preparar o aluno para a vida, não com programas que eles devam apreender, mas com os que possam aprender de acordo com suas condições de desenvolvimento, segundo ela o espirito só pode formar de dentro para fora pela incitação dos impulsos naturais que levam a aprender. Na escola renova as crianças devem desde cedo desenvolver o hábito de trabalhar em comunidade em grupos para que sintam o valor da solidariedade da vida social. O que se deve oferecer ao aluno e a capacidade de resolver situações novas que se lhe apresentem. Não pode, pois, aceitar para transmitir ideias já solucionadas, quando não pode prever problemas futuros. (Escola 1[2], 1934)
No que se refere ao patriotismo, em evidência nesse momento histórico, os discursos inscreviam as instituições escolares como uma das principais responsáveis para inculcar no povo os ideais de progresso e modernidade tão valorizados no projeto republicano. Educar o povo passava pelo desafio de regenerá-lo, de combater os maus costumes, os vícios, a indolência. Foi sob esse projeto educacional, os signos do novo cidadão e da educação moderna que foram criados os Grupos Escolares.
Como se vê, os dois excertos, extraídos da edição 3 de 1934, apresentados a seguir, trazem isso à mostra.
A educação nas escolas deve ser um elemento preparador e fortalecedor da alma nacional. Se essa educação tomar como fundamento a palavra sagrada então trará prosperidade, ordem e harmonia ao Brasil. (Escola 1[3], 1934, p. 44)
O ensino bem feito resulta no progresso de um povo. O bom professor se interessa pela ciência, mas vai além se interessa pela Pátria. (Escola 1[3], 1934, p. 56)
A respeito da valorização da formação para o trabalho e a função dos pais, a Escola Nova foi um movimento de renovação do ensino sob importantes impactos de transformações econômicas, políticas e sociais. O processo de urbanização e a ampliação da cultura cafeeira trouxeram o progresso industrial e econômico para o país. Na essência da ampliação do pensamento liberal no Brasil, se constituiu escolanovista, que acreditava que a educação é o exclusivo elemento verdadeiramente eficaz para a construção de uma sociedade democrática, que leva em consideração as diversidades, respeitando a individualidade do sujeito, aptos a refletir sobre a sociedade e capaz de inserir-se nessa sociedade, mas através do trabalho. Então de acordo com alguns educadores, a educação escolarizada deveria ser sustentada no indivíduo integrado pelo trabalho, como indicia os excertos extraídos da edição 3, de 1934: “Todos são livres para escolher o gênero de trabalho e deve exercê-lo com zelo, dedicação e honestidade, mas ninguém deve ficar sem agir”; “quem não trabalha nada possui e vive as custas alheia”; “que a caridade dever ser realizada com muita atenção para que não se torne salário de ocioso” (Escola 1[3], 1934, pp. 53-55).
Esses discursos destacam que para imprimir nos alunos a realidade social deve-se colocá-los em contato com grandes centros de atividades comerciais com as quais se prepararam tornando-se capazes na vida atual. Para isso o círculo de pais se obriga:
a) interessar a família dos sócios na vida escolar;
b) promover a aproximação dos professores e pais das classes dos respectivos filhos;
c) facilitar torneios da cultura física, instituindo prêmios aos vencedores;
d) contribuir para a educação física e moral dos sócios por meio de palestras, circulares, inquéritos, etc.;
e) concorrer para a educação estética da família despertando e desenvolvendo o sentimento de conforto no lar;
f) interessa-se pelo ex-aluno encaminhando-os as escolas profissionais noturnas estabelecimentos fabris ou comerciais;
g) manter para o uso dos sócios biblioteca em que figurem, obras de preferência sobre a educação e a higiene infantil;
h) Velar pela saúde do associado e sua família encaminhando-o quando preciso aos postos de profilaxia e dispensários etc. (Escola 1[2], 1934, p. 43)
A análise desvelou as estratégias editoriais para disseminar representações sobre o movimento Escola Nova que se fundamentaram no projeto editorial da revista, como instrumentos para formar professores. A materialidade da revista Escola é carregada de preceitos educativos veiculados por autores e autoras que eram valorizados(as) como intérpretes da educação nova. Desta forma, a materialidade da revista indicou que a Escola era objeto de estudo dos professores, diretores e técnicos, se constituiu como referência para o modelo de bem ensinar, em sua maioria propagado por discursos femininos em suas palestras e artigos, mas a pesquisa revelou, que não eram os professores e as professoras que buscavam a revista e sim a revista que chegava até os educadores e educadoras da época porque a revista Escola era distribuída gratuitamente nas escolas do Pará.
Desta forma, as publicações insistem em que essas representações fossem se consolidando no contexto do professorado paraense. Indícios implícitos e nas publicações, nas palestras pedagógicas, nas fotografias registram que as representações sobre a Escola Nova se fundamentam no ideal de patriotismo, na experimentação como principal característica do método para ensinar, no professor(a) como o(a) principal responsável pelo processo de inovação educacional e o aluno, a criança como um ser lapidado para a vida, sobretudo o trabalho, esses marcadores de representações presentes se inscrevem como prática cultural a ser apropriada pelos professores e pelas professoras.
Considerações finais
A representatividade feminina na revista Escola aparece, principalmente, nos registros de práticas e ideário da Escola Nova, colocados em prática por professoras e normalistas e, posteriormente, difundidos em palestras publicadas em artigos. Assim, é possível perceber que os discursos das mulheres que publicavam suas ideias e práticas na revista se ancoravam em representações da Escola Nova ao colocar foco no perfil de professor, ou melhor, de professora, em uma maneira de ensinar e um perfil de aluno.
A Escola como impresso de ensino oficial explicitava as estratégias para formar e atualizar o professorado paraense a partir das concepções teóricos metodológicas que estavam na base dos modernos métodos de ensino na perspectiva de práticas educacionais consideradas transformadoras na década de 1930, no Pará e no Brasil. Considerando as limitações desta pesquisa, em estudos subsequentes, podem ser investigadas, de modo mais aprofundado e detalhado, as representações da Escola Nova, extraindo excertos dos artigos das palestras pedagógicas das professoras, uma vez que nos limitamos a pontuar os marcadores discursivos de representação da Escola Nova, mostrados na tabela 1.
Conclui-se que a revista Escola, como um instrumento de inovação pedagógica da educação paraense na época, trazia vozes femininas, indicando o papel das mulheres na educação paraense, embora isso nem sempre fosse comum, na época, em outros setores da sociedade. Tampouco, as mulheres que protagonizavam os discursos para a difusão da Escola Nova eram reconhecidas ou evidenciadas, sendo homenageadas com a publicação de suas biografias e com sua imagem estampada nas capas das revistas como eram os políticos e intelectuais da época.
Financiamiento
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Conflicto de intereses
Las autoras no tienen conflictos de interés que declarar.
Declaración de autoría
Cilene Maria Valente da Silva: conceptualización, investigación, metodología, redacción-borrador original.
Lorena Bischoff Trescastro: investigación, metodología, redacción-borrador original.
Referências
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Burke, P. (2008). O que é história cultural? (S. G. de Paula, Trad.). Zahar.
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* Cilene Maria Valente da Silva é doutora em Educação pelo Programa de Pós-graduação em Educação, Universidade Federal do Pará (UFPA). Integrante do Grupo Interinstitucional de Pesquisa Ensino de Leitura e Literatura (GPELL/Cnpq).
* Lorena Bischoff Trescastro é doutora em Educação pela Universidade Federal do Pará (UFPA). Professora no Instituto de Educação Matemática e Científica (UFPA). Integrante do Grupo Interinstitucional de Pesquisa Ensino de Leitura e Literatura (GPELL/Cnpq).