Em defensa da educação: discursos de Erico Veríssimo na União Pan-Americana (1955)

Michele Ribeiro de Carvalho Cassano*

Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil.

mmichelerj@gmail.com

http://orcid.org/0000-0003-4880-8773

 

Gabrielle Carla Mondêgo Pacheco**

Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil.

gabimondego09@gmail.com

https://orcid.org/0000-0002-2615-2390

Recibido: 2 de noviembre de 2025 | Aceptado: 1 de diciembre de 2025

 

 

Resumo

O presente estudo tem como objetivo analisar discursos de Erico Veríssimo acerca da educação e da alfabetização, proferidos enquanto esteve à frente do Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos (OEA). Em 1953, Erico Veríssimo assumiu os setores de Educação, Filosofia e Letras, Música e Artes Visuais, Ciências Sociais e a Biblioteca Colombo, além de divulgar a literatura brasileira e realizar conferências sobre o papel da OEA. O escritor aproveitou o espaço diplomático para debater sobre direitos humanos, ditaduras, cultura, literatura, educação e alfabetização. De caráter histórico-documental, este estudo parte dos preceitos da História Cultural, além de estabelecer diálogos com Peter Burke (2011), com ênfase no cruzamento de fontes, tendo em vista o acionamento de cartas enviadas por Veríssimo para amigos enquanto esteve à frente do Departamento de Assuntos Culturais; Ângela de Castro Gomes e Patrícia Hansen (2016), com pesquisas sobre intelectuais mediadores; e Mikhail Bakhtin (2006), cujo estudo sobre discurso foi aporte teórico privilegiado para esta pesquisa. Os resultados alcançados permitem sublinhar a importância de Erico Veríssimo como intelectual produtor de bens simbólicos e mediador cultural (Gomes e Hansen, 2016), além de defensor do acesso à educação e melhores condições de vida e educação para os latino-americanos.

Palavras-chave

Erico Veríssimo, diplomacia, América Latina, conferências, educação.

 

En defensa de la educación: discursos de Erico Veríssimo en la Unión Panamericana (1955)

 

Resumen

El presente estudio tiene como objetivo analizar los discursos de Erico Veríssimo sobre la educación y la alfabetización, pronunciados mientras estuvo al frente del Departamento de Asuntos Culturales de la Organización de los Estados Americanos (OEA). En 1953, Erico Veríssimo asumió la dirección de los sectores de Educación, Filosofía y Letras, Música y Artes Visuales, Ciencias Sociales y la Biblioteca Colombo, además de difundir la literatura brasileña y ofrecer conferencias sobre el papel de la OEA. El escritor aprovechó el espacio diplomático para debatir sobre derechos humanos, dictaduras, cultura, literatura, educación y alfabetización. De carácter histórico-documental, este estudio parte de los preceptos de la Historia Cultural, además de establecer diálogos con Peter Burke (2011), haciendo hincapié en el cruce de fuentes, teniendo en cuenta el análisis de cartas enviadas por Veríssimo a amigos mientras estuvo al frente del Departamento de Asuntos Culturales; Ângela de Castro Gomes y Patrícia Hansen (2016), con investigaciones sobre intelectuales mediadores; y Mikhail Bajtín (2006), cuyo estudio sobre el discurso constituyó una aportación teórica privilegiada para esta investigación. Los resultados obtenidos permiten subrayar la importancia de Erico Veríssimo como intelectual productor de bienes simbólicos y mediador cultural (Gomes y Hansen, 2016), además de defensor del acceso a la educación y de mejores condiciones de vida y educación para los latinoamericanos.

Palabras clave

Erico Veríssimo, diplomacia, América Latina, conferencias, educación.

 

In Defense of Education: Speeches by Erico Veríssimo at the Pan American Union (1955)

 

Abstract

This study aims to analyze Erico Veríssimo's speeches on education and literacy, delivered while he was head of the Department of Cultural Affairs of the Organization of American States (OAS). In 1953, Erico Veríssimo assumed the sectors of Education, Philosophy and Literature, Music and Visual Arts, Social Sciences, and the Colombo Library, in addition to promoting Brazilian literature and holding conferences on the role of the OAS. The writer benefited from the diplomatic scope to discuss human rights, dictatorships, culture, literature, education, and literacy. This historical-documentary study is based on the precepts of Cultural History, establishing dialogues with Peter Burke (2011), emphasizing the intersection of sources, considering the letters sent by Veríssimo to friends while he was head of the Department of Cultural Affairs; Ângela de Castro Gomes and Patrícia Hansen (2016), in reference to the concept of intellectual mediators; and Mikhail Bakhtin (2006), whose study on discourse was a privileged theoretical contribution to this research. The results achieved highlight the importance of Erico Veríssimo as an intellectual producer of symbolic goods and cultural mediator (Gomes and Hansen, 2016), as well as an advocate for access to education and better living conditions and education for Latin Americans.

Keywords

Erico Veríssimo, diplomacy, Latin America, conferences, education.

 

 

O escritor gaúcho Erico Veríssimo[1], para além de sua carreira literária, em que atuou como secretário de redação, editor, escritor, conselheiro editorial, entre outras funções, desempenhou o papel de adido cultural no Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos (OEA), função assumida depois do convite de João Neves da Fontoura[2], em 1952, para substituir Alceu Amoroso Lima[3]. Neves da Fontoura era o então Ministro das Relações Exteriores do Brasil, e buscava implementar uma política de total alinhamento externo com os Estados Unidos da América (EUA).

Em seu livro autobiográfico[4], Erico Veríssimo narra que Neves da Fontoura insistia: “Você não pode deixar de nos ajudar. Quero que o Brasil tenha nos Estados Unidos alguém que possa dar em suas universidades cursos sobre nossa literatura. Conto com sua colaboração” (Veríssimo, 2005a, p. 279). O escritor confessa em suas memórias que possuía mais interesse em conhecer a Europa, pois suas estadas recentes nos Estados Unidos já haviam satisfeito sua curiosidade acerca do país. Contudo, após um plebiscito familiar, resolveu aceitar o convite, e a família partiu em março de 1953. Na escala do Rio de Janeiro, Erico Veríssimo almoçou com o antigo Diretor Amoroso Lima, que lhe entregou uma lista dos funcionários do Departamento, com notas sobre suas personalidades e competências, que muito iriam auxiliá-lo em sua futura gestão na UPA.

Figura 1. Mesa de trabalho de Erico Veríssimo na UPA

 

Fonte: Acervo Erico Veríssimo, Instituto Moreira Salles RJ.

 

Desde a década de 1930, diversos escritores brasileiros foram convidados a visitar os Estados Unidos, em uma espécie de troca, por “boa vontade”[5], entre os dois países. O próprio Erico Veríssimo esteve nos Estados Unidos outras duas vezes, em 1940 e 1943.

No final do ano de 1940, foi convidado pelo Departamento de Estado norte-americano para viajar por várias cidades e proferir diversas palestras sobre o Brasil, sobre a literatura e sobre as relações interamericanas tanto nas universidades, quanto em centros de ensino e educação. Nesta ocasião, encontrou-se com escritores, professores e figuras políticas, tanto brasileiras quanto norte-americanas, além de outras nacionalidades. Em 1943, recebeu o segundo convite, dessa vez para dar um curso sobre literatura brasileira na Universidade da Califórnia, em Berkeley.

Na UPA, a partir de 1953, assumiu os seguintes setores do Departamento: Educação, Filosofia e Letras, Música e Artes Visuais, Ciências Sociais e a Biblioteca Colombo. Seus deveres não eram somente burocráticos: um deles era divulgar a literatura brasileira e o outro era realizar conferências sobre o papel da Organização dos Estados Americanos (OEA). O escritor aproveitou o espaço diplomático para se manifestar sobre direitos humanos, ditaduras, cultura, literatura, educação e alfabetização. Também redigiu o documento Campanha contra o analfabetismo, aprovado sem emendas na X Conferência Interamericana de Ministros do Exterior, realizada em Caracas, Venezuela, em 1954.

Figura 2. Erico Verissimo em seu gabinete na União Pan-Americana, em 1953

Fonte: Acervo Erico Veríssimo, Instituto Moreira Salles RJ.

 

 Reconhecido por muitos como um intelectual que não se posicionava frente a pautas políticas, considerado por uns como um “conservador” ou até mesmo como reacionário, e por outros, ainda, como um possível comunista, Erico Veríssimo se arriscou politicamente ao defender que a “presença do negro” tornou a cultura das duas regiões “mais humana, interessante e colorida” (Bordini, 2016), durante uma conferência intitulada “A América do Sul e o Sul Americano”, realizada em uma universidade americana em 1955, época em que na região sul do EUA vigorava a segregação racial[6]. Em outra ocasião, durante uma solenidade da OEA realizada em Caracas, em 1954, recusou-se a cumprimentar o ditador Marcos Pérez Jiménez (1914-2001), apoiado pelos norte-americanos. Em 1956, na II Reunião do Conselho Cultural Interamericano da OEA, Erico Veríssimo defendeu que a reunião articulasse um programa de erradicação do analfabetismo, uma vez que na América Latina havia, na época, 45 milhões de pessoas que não sabiam ler ou escrever e mais de 15 milhões de crianças fora da escola (Bordini, 2016).

Dez anos mais tarde, em 1966, em resposta às críticas recorrentes sobre sua aparente abstinência política, Erico Veríssimo expõe seu posicionamento, publicado na Revista Realidade:

Já se tem dito e escrito que eu jamais me comprometo politicamente. Ridículo! Creio que durante estes 35 últimos anos tenho me manifestado claramente sobre problemas e acontecimentos políticos e sociais de maneira que me parece coerente e inequívoca, sempre a favor da liberdade e dos direitos do homem e contra todas as formas de opressão – coisa que nem sempre poderia fazer se fosse obrigado a seguir obedientemente a linha sinuosa e muitas vezes autocontraditória dum partido político. (Veríssimo, 1966)[7]

Embora Erico Veríssimo tenha sido colocado nesse lugar de omissão com relação à política vigente, importa, neste estudo, analisar os discursos acerca da educação e da alfabetização proferidos pelo escritor enquanto esteve à frente do Departamento de Assuntos Culturais da OEA. De caráter histórico-documental, este estudo parte dos preceitos da História Cultural, além de estabelecer diálogos com Peter Burke (2011), com ênfase no cruzamento de fontes, tendo em vista o acionamento de cartas enviadas por Veríssimo para amigos enquanto foi adido cultural; Ângela de Castro Gomes e Patrícia Hansen (2016), com pesquisas sobre intelectuais mediadores; e Mikhail Bakhtin (2006), cujo estudo sobre discurso foi aporte teórico privilegiado para esta pesquisa.

 

Erico Veríssimo, um intelectual mediador

A atuação de Erico Veríssimo como adido cultural remete ao conceito de mediador cultural proposto por Sirinelli (2003). Destaca-se que “as práticas de mediação cultural podem ser exercidas por um conjunto diversificado de atores” com grande importância nas sociedades, conforme defendem Gomes e Hansen (2016, p. 9). Ao decidir quais livros seriam publicados por seu departamento na União Pan-Americana, indicando e vetando publicações, artistas e obras de arte que buscavam notoriedade e incentivos, e ainda, divulgando a cultura brasileira em outros países, Erico Veríssimo assumiu sua posição como mediador cultural reconhecido.

Além disso, assumiu o cargo de diplomata, um posto político assim como outras figuras do campo intelectual o fizeram no pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Ainda durante a guerra, intelectuais de vários campos tornaram-se peças-chave da diplomacia cultural interamericana, por meio da Política de Boa Vizinhança[8], idealizada pela gestão do presidente Franklin Delano Roosevelt (1882-1945), tais como Heitor Villa-Lobos[9] e Carmen Miranda[10]. Neste momento, foram criados diversos programas de circulação de escritores, músicos, cientistas, latino-americanos ou estadunidenses.

Partindo do conceito de Iber (2015), observa-se, no final da década de 1940, a posição de Erico Veríssimo como um intelectual engajado, que, grosso modo, seria o intelectual latino-americano que emerge, principalmente com a Guerra Fria, e passa a atuar de maneira engajada no cenário político.

De seu período como adido cultural também resultaram rusgas com outros escritores, entre eles, o chileno Pablo Neruda[11]. A primeira situação que colocou os dois escritores em campos contrários envolve o Congresso Continental de Cultura, organizado por Neruda e realizado no Chile em março de 1953. Um ano antes da realização do congresso, iniciou-se um conflito envolvendo a participação de alguns brasileiros, entre eles Erico Veríssimo. Jorge Amado[12], que à época já se posicionava como militante comunista, insistiu para que o escritor gaúcho participasse do evento. Entretanto notícias veiculadas por jornais de que Erico Veríssimo era anunciado como “comunista militante”, incomodaram o escritor gaúcho:

Fui realmente convidado para o Congresso e assinei o manifesto a que se refere El Mercurio. Apenas, não percebi desde logo que se tratava de manobra comunista para atrair maior número de intelectuais ao Congresso. Não sou e nunca fui comunista. Detesto qualquer tipo de ditadura. (Veríssimo, 10 de agosto 1952)

Tudo indica que alguns escritores liberais caíram em mais uma armadilha sectária, sendo levados a fazer papel de “inocentes úteis”. Não permitirei que usem o meu nome em benefício de qualquer manobra política, seja ela burguesa ou comunista. Reafirmo que detesto qualquer espécie de ditadura. Nenhuma arte digna e grande pode florescer num clima de opressão. (Veríssimo, 6 agosto 1952)

Para complicar a situação, pouco tempo depois, Neruda recusou-se a autorizar que seus poemas constassem em uma antologia de literatura ibero-americana publicada com incentivo da União Pan-Americana. Em carta presente no espólio de Erico Veríssimo, sob guarda do Instituto Moreira Salles, localizado no Rio de Janeiro, Pablo Neruda escreve:

Sr. Erico Veríssimo

Diretor do Departamento de Assuntos Culturais da Organização dos Estados Americanos

Washington

 

Estimado senhor:

Recebi sua carta convidando-me a participar de uma antologia da Poesia Iberoamericana, dirigida pelo Sr. Federico de Onís e que será publicada pela Organização dos Estados Americanos.

Peço-lhe que não inclua nenhuma de minhas obras em tal publicação.

Para os povos latino-americanos e, em especial para o povo chileno, a instituição em que o senhor trabalha representa um instrumento da política do Departamento de Estado de Washington. Eu não poderia explicar a meu povo minha colaboração com os que friamente extorquem nossa economia, planejam a repressão, destroem a liberdade no continente, escravizam a Porto Rico, perseguem a Paul Robeson, desterram Chaplin, criador do cinema norte-americano, e assassinam ao casal Rosenberg. (Neruda, 1953)

Esse episódio com Pablo Neruda se desenrolou por mais algumas cartas e notas em jornais da época, ampliando a animosidade entre os escritores. Entretanto, importa aqui indicar que esses espaços de sociabilidade por onde circulou Erico Veríssimo não incluem somente relações amigáveis e de aproximação entre os intelectuais. De outra maneira, distanciamentos e conflitos também estão presentes nessas redes que se formam.

Como agente político, Erico Veríssimo realizou inúmeros pronunciamentos, dentre eles um acerca da infância latino-americana, no X Congresso Pan-Americano da Criança no Panamá. Nele, afirmava ter “um carinho muito especial pelas crianças” e mencionava as histórias que escreveu para elas[13]. Defendia, ainda, que seu interesse por “bem-estar e destino” nada teria de acadêmico, mas, profundamente, humano. Suas inquietações seriam sobre a forma de sobrevivência de muitas sociedades latino-americanas, em que milhões de pessoas viviam na extrema miséria. Para Veríssimo, não haveria “cruzada mais nobre e grandiosa para homens de pensamento e governo do que arrebatar das enfermidades, analfabetismo e miséria essas imensas massas que vivem à margem da vida”. Então, o meio para isso seria garantir que cada um tivesse ciência de “seu corpo, sua alma, seu direito à felicidade e de participar plenamente dos benefícios da comunidade humana”.

Em acréscimo, observa que esse seria o grande desafio de “nossos estadistas, professores, escritores e cientistas”. O escritor também afirmava não acreditar em um mundo perfeito, sublinhava que, se “usássemos todos os recursos da tecnologia e da ciência com um espírito de justiça, poderíamos eliminar completamente calamidades sociais como a fome, as doenças infecciosas e a miséria crônica”. Prossegue, indicando que, para ele, a “melhor maneira de iniciar esta grande cruzada em prol da recuperação de populações marginais seria prestar uma atenção crescente aos problemas da criança”, visto que não fazia sentido todo o empenho em salvar suas vidas nos seus primeiros anos para deixá-las morrer nos campos de batalha e em cidades bombardeadas na guerra.

 

Os pronunciamentos de Veríssimo

O potencial da linguagem tem na carreira de Erico Veríssimo um lugar central. O escritor acreditava que “se palavras podem mesmo ajudar alguém, creio que ajudei um pouquinho aqueles rapazes e raparigas de Beja” (Veríssimo, 2005b, p. 229), referindo-se à cidade de Beja, em Portugal[14]. Além das palestras e das conferências que realizou nos Estados Unidos durante o trabalho desempenhado na União Pan-americana, Erico Verissimo foi, muitas vezes, chamado a prestar contas de sua administração, principalmente nas Conferências Interamericanas da OEA. Era sua responsabilidade comandar uma equipe altamente especializada, com atribuições regulamentares em diversas áreas do conhecimento, que exigiam pesquisa, produção de conhecimento e resultados correspondentes aos desígnios da Organização (Bordini e Fauri, 2020).

 

Em defesa da educação

Em uma das tardes da X Conferência Interamericana de Ministros do Exterior, realizada em Caracas (1954), Erico Veríssimo redigiu, junto com o diretor da Divisão de Educação e seu assessor, o documento intitulado Campanha contra o analfabetismo, aprovado sem emendas. Em discurso proferido na mesma conferência, Erico Veríssimo expôs:

Para promover a campanha contra o analfabetismo, cooperamos com a UNESCO em um centro de treinamento para líderes do movimento em Pátzcuaro, México. Também estamos publicando aqui uma série de cartilhas - ilustradas e com vocabulários simples - que transmitem não apenas os rudimentos da leitura e da escrita, mas também elementos de higiene, educação cívica, conservação e assim por diante. Produzidas em massa para uso em todos os países de língua espanhola, podem ser usadas amplamente, a um custo de poucos centavos cada. Existe até um plano pelo qual indivíduos interessados podem fazer doações de conjuntos para uma ou outra das comunidades nas quais são tão dolorosamente necessárias. (Veríssimo, 1954, en Bordini e Fauri, 2020, p. 116)

O excerto indica a preocupação com uma educação para além do saber ler e escrever, mas uma educação em sentido ampliado, enfocando a higiene, os direitos e deveres do cidadão e conservação do espaço público e privado. Contudo, tais “cartilhas” foram produzidas em larga escala para uso em todos os países da América Latina, sem considerar as características próprias de cada país.

Sob a gerência de Erico Veríssimo, o Departamento de Assuntos Culturais (DAC) também propôs o incentivo ao intercâmbio de pessoas como importante atividade educacional, por meio do qual ações seriam realizadas com alunos e docentes americanos que se interessassem por cursos em países da América Latina.

Em 12 de maio de 1956, Veríssimo participou da II Reunião do Conselho Cultural Interamericano da OEA, que reuniu Ministros de Educação de 21 países-membros, a fim de avaliar o trabalho do DAC e elaborar seu novo programa de atividades, o qual deveria contemplar o fomento da educação fundamental, e que ser desenvolvido em conjunto com a Comissão de Ação Cultural mexicana. A UNESCO, presente através de seus observadores, realizara sua conferência regional com o tema “Ensino Gratuito e Obrigatório na América Latina”, cujos resultados seriam repassados à Conferência dos Ministros.

Erico Veríssimo destacou a necessidade de que a reunião articulasse um programa de erradicação do analfabetismo, uma vez que na América Latina havia 45 milhões de pessoas que não sabiam ler nem escrever, e mais de 15 milhões de crianças sem acesso à escola. Como forma de ressaltar o que seu Departamento vinha realizando, destacou que já tinha instalado 500 bibliotecas na Nicarágua e outras 500 na Costa Rica, que haviam sido despachados materiais instrucionais para outras instituições no Equador e na Bolívia, além do Peru. Solicitou, ainda, suporte para o programa de produção de livros para adultos recém alfabetizados, além da criação de bibliotecas populares, o que estimularia a leitura.

Em defesa do programa de atividades DAC/CAC, pediu suporte financeiro para diversas ações: para os projetos da Seção de Artes e Filosofia —com o término do Dicionário de Literatura Latino-Americana e a continuidade da tradução de obras significativas dessa literatura—; para a promoção de seminários e reuniões sobre problemas sociológicos e antropológicos, proposta pela sua Seção de Ciências Sociais; para iniciativas para o uso pacífico da energia nuclear, em que a Seção de Ciência e Tecnologia poderia cooperar; para apoio à Biblioteca Colombo, especializada em assuntos americanos; para o fomento de filmotecas circulantes, de apresentações interamericanas de artes musicais e visuais; e por fim, para a elaboração da Carta Cultural da América, que abrangeria todas as normas aprovadas pelas Conferências realizadas.

Em A América do Sul e o Sul-Americano, Erico Veríssimo faz uma reflexão sobre os motivos de os povos latino-americanos se sentirem mais “próximos” de portugueses, espanhóis e italianos do que dos norte-americanos. Observa que, apesar da língua inglesa fazer parte dos currículos escolares no Brasil, poucos brasileiros efetivamente tinham o inglês como segunda língua. Considerava, assim, as diferenças linguísticas como uma barreira à unidade hemisférica.

De acordo com Erico Veríssimo:

A União Pan-Americana, secretariado permanente da Organização dos Estados Americanos, está profundamente interessada em todos os aspectos da civilização do Novo Mundo e nos meios de promover um maior intercâmbio cultural, em particular no campo da educação. Temos, de fato, uma Divisão de Educação especializada, em grande parte preocupada em elevar o nível de instrução na América Latina e em estender seus benefícios a uma maior parte da população local. Além de produzir cartilhas de produção em massa para uso nas campanhas contra o analfabetismo, patrocinou, nos últimos sete anos, uma série de cinco seminários interamericanos sobre vários aspectos da educação - fundamental, adulta, elementar, vocacional e secundário. (Veríssimo, 1955, en Bordini e Fauri, 2020, p. 211)

Para o escritor, a solução para os problemas sociais atrelava a educação aos fatores econômicos.

No entanto, desejo igualmente esclarecer que é necessário muito mais do que assistência técnica e financeira para resgatar as massas latino-americanas que vivem —se é que se pode usar esse verbo— na mais sórdida pobreza. O problema, então, não é meramente econômico ou tecnológico. É também um problema de educação e psicologia social. É por esse motivo que a solução não está apenas nas mãos de banqueiros, industriais, políticos e empreendedores, mas também nas de professores, escritores e filósofos. (Veríssimo, 1955, en Bordini e Fauri, 2020, pp. 231-232)

Erico Veríssimo, de acordo com o excerto acima, defendia que professores, escritores e filósofos deveriam ser ouvidos quando questões relativas à melhoria das condições de vida dos povos latino-americanos estivessem em análise ou debate. A ideia de que reduzissem esses debates a meras questões econômicas ou tecnológicas, com respostas simplistas, era impensável para o autor. Deste modo, entendia e defendia que as possíveis soluções passavam também pela educação e pela psicologia social.

 

Posicionamento político

Acusado por muitos críticos de não assumir uma posição política, ao longo dos anos na União Pan-americana, Erico Veríssimo participou de conferências em que defendeu a liberdade e a democracia, como a realizada em 21 de fevereiro de 1955 no tradicional Hollins College[15], e intitulada “A liberdade na América Latina”.

Nessa ocasião, Erico Veríssimo desenvolveu a ideia de que liberdade e democracia andam juntas e que deveriam ser defendidas para que as nações latino-americanas tivessem mais justiça social, de modo que os mais abastados deixassem seus excessos de fortuna para que a maioria do povo contasse com o essencial (Bordini e Fauri, 2020). Destaca-se que, nesta época, países como Paraguai, de Alfredo Stroessner (1954-1989), na Colômbia, de Rojas Pinilla (1953-1957), na Nicarágua, de Anastasio Somoza (1936-1956) e no Brasil, de Getúlio Vargas (1930-1945), haviam prosperado regimes ditatoriais, vários apoiados pelos Estados Unidos, por interesses comerciais e de pretenso combate à infiltração comunista.

Em maio de 1955, Erico Veríssimo compareceu a uma mesa redonda na Universidade da Califórnia, em Los Ángeles, sobre Estudos Latino-Americanos. Convidado na qualidade de diretor do Departamento de Assuntos Culturais da União Pan-Americana, denunciou fortemente o anti-intelectualismo que se propagava pelas democracias, em especial sobre os Estados Unidos, ameaçando professores, escritores, artistas, cientistas e outros intelectuais com censura, expurgos, queima de livros e assassinatos de caráter, no auge do Macarthismo (Bordini e Fauri, 2020). O intelectual defendia que para que as relações com a América Latina chegassem a um entendimento verdadeiro, fundamentado no conhecimento e não em preconceitos ideológicos, deveria haver, antes de tudo, liberdade.

 

Considerações finais

Por meio deste estudo, foi possível compreender a importância de Erico Veríssimo como intelectual produtor de bens simbólicos e mediador cultural (Gomes e Hansen, 2016) e intelectual engajado (Iber, 2015), além de defensor do acesso à educação e melhores condições de vida e educação para os latino-americanos, através de suas ações enquanto adido cultural no Departamento de Assuntos Culturais, cargo oriundo da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A partir da análise das Conferências Interamericanas, proferidas por Erico Veríssimo até 1954, concluiu-se que o discurso por ele veiculado atribuía maior valor às tratativas culturais sobre erradicação do analfabetismo, da miséria e das doenças nas Américas, do que à publicização de temas como o combate ao comunismo, o que incomodou tanto a intelectualidade brasileira que, naquele momento, já se mobilizava publicamente sobre seus posicionamentos políticos, quanto intelectuais de outras nacionalidades, que cultivaram certas animosidades com o escritor gaúcho.

Todavia, considerando os discursos de Erico Veríssimo, é possível perceber seu interesse em diminuir a distância e os conflitos entre América do Norte e do Sul, por meio do conhecimento mútuo. Com isso, para plateias acadêmicas, procurou demonstrar que embora as diferenças não pudessem ser apagadas, informações sérias, baseadas nas artes e nas ciências, especialmente as humanas, poderiam fortalecer laços de compreensão e respeito, sem implicar em dominação cultural.

Conforme Bordini e Fauri (2020), Erico Veríssimo, mesmo sem familiaridade com as exigências da diplomacia, tentou, de acordo com seus princípios, pacificar as interações entre Estados Unidos e os países da América do Sul e da América Central, através da defesa da cultura. Seus discursos revelam uma posição política progressista de um escritor proveniente do sul do Brasil, que, ao circular pelas Américas, pôde melhor perceber os efeitos, tanto internos quanto externos, das relações de poder na época.

Financiamiento

Este estudio no cuenta con financiación de ninguna agencia.

Conflicto de intereses

Las autoras no tienen conflictos de interés que declarar.

Declaración de autoría

Michele Ribeiro de Carvalho Cassano: investigación, metodología, visualización, redacción-borrador original, redacción-revisión y edición.

 

Gabrielle Carla Mondêgo Pacheco: metodología, visualización, redacción-revisión y edición.

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Verissimo, E. (2005b). Solo de clarineta (vol. 2). Companhia das Letras.

 



* Michele Ribeiro de Carvalho Cassano é graduada em Pedagogia pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), especialista em Orientação Educacional pela Faculdades São Judas Tadeu (FSJT), mestre em Educação e doutora em Educação (ProPEd/UERJ). Estágio Pós-doutoral (Unifesp).

** Gabrielle Carla Mondêgo Pacheco é graduada em Letras-Inglês/Literaturas pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), mestre em Educação e doutora em Educação (ProPEd/UERJ).

[1] Erico Lopes Veríssimo nasceu na pequena cidade de Cruz Alta, em 17 de dezembro de 1905. Foi romancista, contista, novelista, tradutor e editor. Vindo de família de prestígio, foi inserido no mundo literário desde cedo. Desempenhou inúmeras funções na Livraria e Editora do Globo, casa-editora que publicou todos os seus livros, inclusive como escritor e editor de vários periódicos (Silva et al., 2025).

[2] Nascido em Cachoeira do Sul, foi um político conservador, teve parte importante na Aliança Liberal Libertadora e se opôs à candidatura de Vargas, vindo só bem mais tarde a apoiá-lo. No governo Dutra, tornou-se Ministro das Relações Exteriores.

[3] Também conhecido pelo pseudônimo Tristão de Athayde, foi membro da Academia Brasileira de Letras, crítico literário, escritor, professor, intelectual e líder católico brasileiro. Em 1913 viajou à França e, depois de regressar ao Brasil, foi convidado a integrar o Ministério das Relações Exteriores. Ao ingressar na vida literária, adotou o pseudônimo Tristão de Athayde quando assinou a sua primeira crítica literária em O Jornal, em 19 de junho de 1919. Foi voz ativa contra a ditadura militar instaurada em 1964, que perdurou até 1985. Contra o golpe militar, alinhou-se a Dom Hélder Câmara. Em 1950, aceitou o convite para ocupar o cargo de Diretor Cultural da União Pan-Americana (UPA), trabalhando em Washington, D.C. (Rodrigues, 2012, 2013).

[4] Verissimo (2005a, 2005b).

[5] A Good Neighbor policy foi implantada pelos Estados Unidos no governo do presidente Franklin Roosevelt no ano de 1933 e durou até o início da Guerra Fria, no ano de 1945. Tal política contemplou diversas ações em diferentes áreas —como a indústria, a agricultura, a cultura— implementadas pelo governo norte-americano, a fim de que se alinhassem os interesses da América Latina aos interesses dos Estados Unidos (Tota, 2000).

[6] Na década de 1950, a segregação racial nos Estados Unidos era sistêmica e imposta por lei, especialmente nos estados do sul, por meio das chamadas "Leis de Jim Crow". Essas leis mantinham a população negra separada da branca em quase todos os espaços públicos, apesar da 14ª Emenda da Constituição garantir a igualdade de direitos. Esta mesma década foi crucial para o Movimento pelos Direitos Civis, com eventos que desafiaram a segregação e impulsionaram a luta por igualdade (Silva, 2021).

[7] Veríssimo (1966) apud Veríssimo (2003).

[8] Estratégia de política externa dos Estados Unidos implementada pelo presidente Franklin D. Roosevelt, entre 1933 e 1945, a fim de melhorar as relações com a América Latina. Substituindo intervenções militares, a política visava a aproximação diplomática, cultural e econômica, buscando aliados contra a possível ascensão do nazifascismo e evitando a disseminação do socialismo no continente. Tal estratégia teve impacto significativo na produção cultural e no desenvolvimento econômico da América Latina, embora também tenha levado a uma maior influência cultural dos Estados Unidos (Monteiro, 2014).

[9] Heitor Villa-Lobos (1887-1959) foi um importante compositor do século XX e o principal expoente do nacionalismo musical no Brasil. Foi reconhecido como um dos principais nomes da Semana de Arte Moderna de 1922, quando apresentou novas ideias para a música nacional. A partir de 1923, morou em Paris, onde sua música ganhou notoriedade internacional. Durante o governo de Getúlio Vargas, implementou um programa de educação musical nas escolas do Distrito Federal (hoje Rio de Janeiro) e fundou o Conservatório Nacional de Canto Orfeônico. Sua vasta obra, com cerca de mil composições, mescla a música erudita com elementos folclóricos e populares brasileiros (Salles, 2017).

[10] Carmen Miranda (1909-1955) foi cantora, dançarina e atriz luso-brasileira que se tornou uma das artistas mais bem-sucedidas e um dos símbolos mais reconhecidos do Brasil no exterior. Atuou em filmes musicais como Alô, Alô, Carnaval (1936) e Banana da Terra (1939). Em 1939, a convite de um empresário americano, ela estreou na Broadway e, em 1940, fez seu primeiro filme nos Estados Unidos, Serenata Tropical (Down Argentine Way). Conhecida como "A Pequena Notável", ela alcançou fama internacional em Hollywood com seus figurinos extravagantes, marcados pelo icônico turbante de frutas, e por popularizar o samba e a música brasileira no mundo (Macedo, 2019).

[11] Pseudônimo de Ricardo Eliécer Neftalí Reyes Basoalto (1904-1973), foi poeta, diplomata e político chileno, um dos mais influentes e aclamados escritores latino-americanos do século XX. Reconhecido por sua poesia em uma variedade de estilos, desde poemas de amor a épicos históricos e manifestos políticos, Neruda foi laureado com o Prêmio Nobel de Literatura em 1971. Ocupou vários cargos diplomáticos, que o levaram a países como Espanha, França, Índia e México. Durante a Guerra Civil espanhola, sua poesia se tornou mais politicamente engajada, influenciada por suas convicções comunistas. Em 1945, foi eleito senador pelo Partido Comunista do Chile. Perseguido e exilado, ao retornar ao seu país, apoiou o governo socialista de Salvador Allende (Nobel Prize, 2025).

[12] Jorge Amado (1912-2001) foi um dos mais célebres e traduzidos escritores brasileiros, membro da Academia Brasileira de Letras. Sua obra é marcada por temas sociopolíticos e pelo neorregionalismo, com o estado da Bahia como cenário central. Filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1932, foi eleito deputado federal por São Paulo em 1945, sendo o mais votado do estado. Perseguido durante a ditadura militar, viveu exilado na França e na Tchecoslováquia. Em 1987, foi criada a Fundação Casa de Jorge Amado, em Salvador, para preservar e divulgar seu legado literário. O escritor é lembrado como um cronista da alma brasileira e da cultura baiana, com uma obra que capturou a identidade do país (ABL, 2025).

[13] Estas obras foram devidamente estudadas na tese de doutorado intitulada Erico Veríssimo e a Biblioteca de Nanquinote: um projeto para a “petizada” brasileira (1936-1949) (Carvalho, 2021).

[14] Esta visita ocorreu em fevereiro de 1959, a convite do editor António de Sousa Pinto. Durante quase um mês de viagem, Erico Veríssimo visitou as cidades de Lisboa, Estoril, Sintra, Mafra, Óbidos, Alcobaça, Nazaré, Batalha, Leiria, Conímbriga, Coimbra, Porto, Braga, Barcelos, Guimarães, Amarante, Vila Real, Peso da Régua, Lamego, Castro Daire, Viseu, Abrantes, Santarém, novamente Lisboa, Azeitão, Setúbal, Estremoz, Monsaraz, Évora, Vila Viçosa, Beja, Faro, Silves, Portimão, Lagos, Vila do Bispo e Sagres (Veríssimo, 2005b).

[15] Escola superior para moças, transformou-se em uma prestigiada universidade da Virginia, dedicada às artes liberais.