Historiografia no território brasileiro: os caminhos das escritas na Baixada Fluminense

Eliana Santos da Silva Laurentino*

Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Brasil.

Laurentinoeliana@gmail.com

https://orcid.org/0000-0002-3742-1525

Recibido: 30 de octubre de 2025 | Aceptado: 4 de diciembre de 2025

 

A história, então, seria o aprendizado da multiplicidade e da diferença. Assim como da singularidade, quer dizer, a história que lida com o singular. Ora, a história sempre lidou com a coisa que é absolutamente excepcional, mas nunca nos preparou para conviver com o singular porque sempre dissolveu o singular no geral.

Durval Muniz, 2001.

Resumo

O objetivo principal do trabalho é identificar os interesses teóricos e metodológicos sobre o local no campo da História e da História da Educação na Baixada Fluminense - RJ. Desse modo, a partir da análise de produções realizadas com foco no local, em perspectivas de escalas (Revel, 1998), e direcionadas à Baixada Fluminense em dois eventos significativos no ano de 2024 —o evento regional da Associação Nacional de Pesquisadores de História (ANPUH) e o IV Encontro de História da Educação do Estado do Rio de Janeiro—, serão apresentados os direcionamentos de leituras sobre o local da Baixada Fluminense. A partir dos anais dos eventos e das produções realizadas sobre os Encontros Regionais de História da Educação no Rio de Janeiro, foram identificadas como as escritas historiográficas sobre o evento de História da educação na região estão preocupadas e refletindo sobre os significados teóricos e metodológicos a partir do local, que possibilitam o reconhecimento das identidades locais, algo que se confirmou com apresentação em praticamente todos os eixos no IV EHED, com temas sobre a Baixada Fluminense.

Palavras chave

História da historiografia da educação, Baixada Fluminense, história local.

 

Historiografía en territorio brasileño: las rutas de la escritura en la región de Baixada Fluminense

Resumen

El objetivo principal del trabajo es identificar los intereses teóricos y metodológicos sobre lo local en el campo de la Historia y de la Historia de la Educación en la Baixada Fluminense-RJ. De este modo, a partir del análisis de producciones realizadas con enfoque en lo local, en perspectivas de escalas (Revel, 1998) y dirigidas a la Baixada Fluminense en dos eventos significativos en 2024 —el evento regional de la Asociación Nacional de Investigadores de Historia (ANPUH) y el IV Encuentro de Historia de la Educación del Estado de Río de Janeiro—, se presentarán las orientaciones de lecturas sobre lo local de la Baixada Fluminense. A partir de las actas de los eventos y de las producciones realizadas sobre los Encuentros Regionales de Historia de la Educación en Río de Janeiro, se identificó cómo las escrituras historiográficas sobre el evento de la historia de la educación en la región se ocupan y reflexionan sobre los significados teóricos y metodológicos a partir de lo local, lo que posibilita el reconocimiento de las identidades locales, algo que se confirma en las ponencias presentadas en prácticamente todas las secciones del IV EHED, con temas relacionados con la Baixada Fluminense.

Palabras clave

Historia de la historiografía de la educación, Baixada Fluminense, historia local.

 

Historiography in Brazilian Territory: The Paths of Writing in the Baixada Fluminense Region

Abstract

The main objective of this work is to identify the theoretical and methodological interests regarding the local context in the field of History and History of Education in the Baixada Fluminense - RJ. Thus, based on the analysis of works focused on the local context, through scale perspectives (Revel, 1998), and directed towards the Baixada Fluminense in two significant events in 2024: the regional event of the National Association of History Researchers (ANPUH) and the IV Meeting of History of Education of the State of Rio de Janeiro, the directions of readings on the local context of the Baixada Fluminense will be presented. From the annals of the events and works produced on the Regional Meetings of History of Education in Rio de Janeiro, it was identified how historiographical writings on the History of Education event in the region are concerned with and reflect on theoretical and methodological meanings from the local perspective, enabling the recognition of identities places, something that was confirmed with presentations in practically all sections at the IV EHED, with topics on the Baixada Fluminense.

Keywords

History of the Historiography of Education, Baixada Fluminense, local history.

 

Primeiras considerações

Apesar da distância temporal da reflexão de Durval Muniz, que apresento nessa epígrafe, acredito que a proposta é muito atual e conversa com as demandas apresentadas nos eventos que desejo estabelecer relações. Eventos que tem uma preocupação de abordar a História, com destaque sobre os seus sentidos e em especial relacionar com o debate regional, no caso o Rio de Janeiro, com questões que mobilizam pensar o território, a diversidade e as diferenças. A partir do que Durval propõe em seu texto que é a dimensão “política e ética” da história, a proposta aqui é estabelecer certa comparação sobre os trabalhos apresentados em dois eventos significativos no ano de 2024: evento regional da Associação Nacional de Pesquisadores de História (ANPUH-RJ) e o IV Encontro de História da Educação do Estado do Rio de Janeiro (EHED), e espera-se observar como as propostas apresentam e se apresentam os sentidos e usos dos passados, bem como os direcionamentos para as práticas educativas, na perspectivas do local.

Diante de debates constantes sobre as diásporas contemporâneas, marcadas pelas configurações de territorialização e desterritorialização (Haesbaert, 2007), o lugar do local, que configura referência de identidade, torna-se cada vez mais urgente nos estudos no campo da história da historiografia. Contudo, percebe-se uma carência de pesquisas, no que tange a perspectiva teórico metodológico, sobre as produções realizadas sobre a história local. Ora os trabalhos são considerados “memorialistas”, ora ficam limitados ao enfoque local, reduzindo o entendimento dos usos do passado para a construção do território, bem como o papel da história local à historiografia e os impactos nas práticas educativas em uma perspectiva patrimonial, que configuram representações identitárias. Nesse sentido, a abordagem sobre o debate local e regional que os eventos mobilizam no campo da História e, em específico, no campo da História da Educação indicam caminhos de reflexões frutíferos para os desdobramentos políticos, éticos e filosóficos que as reflexões teóricas e metodológicas sobre o local podem suscitar.

Desse modo, considero que os eventos e as produções realizadas a partir dos Encontros de História da Educação Regional são partes importantes para a elaboração teórico e metodológica sobre os sentidos e o sentir do local/regional para a historiografia. Ao passo que configuram as demandas de pertencimento, os trabalhos mobilizam formas de leitura sobre os significados políticos, culturais e sociais que envolvem os usos do passado no território. Isso passa especialmente pelas escritas. Assim, primeiro gostaria de destacar as temáticas dos eventos e suas respectivas programações, considerando as conferências de abertura e de encerramento, bem como as mesas e demais atividades em destaque pelos organizadores. Penso que este pode ser um indicador das intencionalidades dos organizadores e, quem sabe, uma baliza para a participação nos grupos temáticos. Em seguida, destaco os encaminhamentos dos eventos realizados no ano de 2024, tanto pela ANPUH-RJ quanto pelo EHED-RJ, com referência à Baixada Fluminense, considerando que os estudos sobre a região estão avançando na construção de pertencimento sobre o território, o que confere maiores esforços de estudos, pesquisas e práticas educativas na e sobre a Baixada Fluminense.

 

Sentidos e usos do passado no território: caminhos historiográficos

É preciso reconhecer que a Baixada Fluminense é uma invenção[1], ou seja, um amálgama de referências simbólicas que sugerem uma unidade territorial, mas que carregam a diversidade cultural que constitui/circunscreve os diferentes municípios que receberam e recebem diferentes pesquisas sobre suas historicidades[2]. O esforço da conexão ou da unidade é elaborado e reelaborado, especialmente, pelas produções de conhecimento histórico com ênfase nos caminhos, sejam eles os fluviais, ferroviários ou rodoviários, destacando seus múltiplos significados ao longo do tempo. Essa articulação de amálgama, pode ser um indicador dos crescentes investimentos de produções historiográficas sobre esse território preocupados em estabelecer referências identitárias.

Neste sentido, destaco o interesse em identificar como os percursos e investimentos de escritas impactam e são impactadas nos eventos analisados. Para tanto, considero avaliar as conferências de abertura e de encerramento do encontro da ANPUH-RJ, com temáticas reflexivas sobre o papel da ANPUH, a partir da apresentação da professora Ana Maria Veiga, que tem como áreas de interesse: “Teorias da história, Teorias decoloniais, Interseccionalidade, Imagens, Cinema, Produções audiovisuais, Gênero e Sertões”[3]. E nesse sentido, uma fala com uma perspectiva de história mais democrática e inclusiva. O encerramento ficou com a Professora Ismênia Martins, que de acordo com suas orientações de trabalho dialoga com a proposta do evento e a demanda de reflexão regional, já que, “trabalha principalmente com os temas relacionados à história fluminense, imigração e gênero"[4].

Quadro 1. Programação das Conferências. ANPUH-RJ 2024

História, Democracia, Igualdade e Diversidade 08-12 de julho

ATIVIDADE

TÍTULO

PARTICIPANTES

CONFERÊNCIA DE ABERTURA

A ANPUH como espaço profissional e político de democracia e equidade

Ana Maria Veiga (UFPB) Presidenta da ANPUH-Brasil

CONFERÊNCIA DE ENCERRAMENTO

História Regional Fluminense em Perspectiva

 Ismênia de Lima Martins (UFF) Professora Emérita

 

Fonte: 21º Encontro de História da Anpuh-Rio. Programação. https://encontro2024.rj.anpuh.org/programacao

 

As propostas das conferências conversaram com as seis mesas organizadas em dois dias, que ocorreram de forma simultânea e distribuída nas duas instituições organizadoras: Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEBF) e Universidade UNIGRANRIO. Com presença de professoras e professores de diferentes instituições, e não apenas do estado do Rio de Janeiro, as mesas ocorreram do seguinte modo:

Quadro 2. Programação das mesas. Dia 1. ANPUH-RJ 2024

 1 dia - MESAS REDONDAS - 09-07-2024

MESA

PARTICIPANTES

LOCAL

Escravidão,História Pública e Reparação

Álvaro Pereira do Nascimento (UFRRJ) Clemente Penna (UFSC) Nielson Bezerra (FEBF/UERJ) Mediação: Mariana Muaze (UNIRIO)

FEBF

Visões sobre a propriedade e o rural:historiografia e ofício do historiador

Ana Sara Cortez Irffi (UFC/INCT-PROPRIETAS) Thiago Alves Dias (UPE/INCT-PROPRIETAS) Marlúcia Santos de Souza(CRPH/DC) Mediação: Marina Monteiro Machado (UERJ/ANPUH-Rio/INCT-PROPRIETAS)

UNIGRANRIO

 Ditadura, Memória e Cidadania

Marcus Dezemone (UFF/UERJ) Rodrigo de Sá Netto (Arquivo Nacional) Leandro Benmergui (Purchase College) Mediação: Beatriz Kushnir (PPGARQ/UNIRIO/ANPUH-Rio)

UNIGRANRIO

Fonte: 21º Encontro de História da Anpuh-Rio. Programação. https://encontro2024.rj.anpuh.org/programacao

  

De acordo com a proposta do Encontro, que é pensar a democracia, igualdade e a diversidade, as mesas temáticas do primeiro dia abordaram tanto as demandas sobre reparação histórica, quanto questões sobre propriedade e a ditadura militar, no ano que marcou os 60 anos do golpe militar no Brasil. Já as mesas do segundo dia, conforme o quadro que segue, parecem apontar demandas do local e as interfaces com o ensino de história, com indicativos para as questões da diversidade em diálogo com impactos das demandas de políticas públicas educacionais.

Quadro 3. Programação das mesas. Dia 2. ANPUH-RJ 2024

2 dia - MESAS REDONDAS - 10-07-2024

MESA

PARTICIPANTES

LOCAL

Baixada Fluminense: educação, historiografia e diversidade

Eliana Laurentino (A Cor da Baixada / UERJ) Adriana Batalha (Faetec / UFF) Amália Dias (FEBF / UERJ) Mediação: Tania Amaro (IHCMDC)

FEBF

Humanidades Digitais

Tiago Gil (UnB) Eric Brasil (UNILAB) Christiano Britto Monteiro dos Santos (UFF) Mediação: Carlos Eduardo Coutinho da Costa (UFRRJ)

UNIGRANRIO

 

A história na escola: reformas curriculares e o novo ensino médio

Maria Paula Gonzalez (Universidad Nacional de general Sarmiento) Mariana Esteves de Oliveira (UFMS) Iamara da Silva Viana (UERJ) Marcelo Magalhães (UNIRIO) Mediação: Juçara Mello (PUC-Rio/ANPUH-Rio) e Ricardo Castro (UFRJ/ANPUH-Rio)

 

UNIGRANRIO

Fonte: 21º Encontro de História da Anpuh-Rio. Programação. https://encontro2024.rj.anpuh.org/programacao

 

Dessa forma, considero que o evento realizou um convite para participação ampla de debates com abordagem que, na perspectiva da pesquisa e do ensino, pudessem conversar com demandas “urgentes” na pauta da ANPUH, em 2024: democracia, igualdade e diversidade.

 Nesse momento, me interessa observar como o EHED conversa e se conversa com o evento regional ANPUH ocorrido no mesmo ano, e, especificamente, se e como os trabalhos com foco na Baixada Fluminense estão preocupados em fomentar caminhos de investigação que potencializam o local. Assim, interessa olhar as aproximações temáticas das mesas apresentadas tanto na ANPUH-RJ, quanto no IV EHED-RJ. Conforme quadro abaixo, os dois eventos estavam em sintonia com as demandas do tempo, ou seja reflexões sobre as demandas democráticas em um ano de rememorar o golpe militar brasileiro.

Quadro 4. Programação das mesas e conferências. EHED 2024

ENCONTRO DE HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO DO ESTADO DO RJ  - 05-07 nov

ATIVIDADE

TÍTULOS

PARTICIPANTES

CONFERÊNCIA DE ABERTURA

Abertura: O Golpe Civil-Militar de 1964: educação, projetos e resistências

 Mediação: Sônia Camara (UERJ)

Palestrante: Professor Dr. Carlos Fico (UFRJ)

MESA I

Mesa 1: Ensinos, pesquisas, arquivos e fontes em História da Educação no Estado do Rio de Janeiro

 

Mediação: José Cláudio Sooma da Silva (UFRJ)

Professor Doutor José Gondra (UERJ)

Professora Doutora Cláudia Alves (UFF)

Professora Doutora Libânia Xavier (UFRJ)

 

MESA 2

Mesa 2: História da Educação: centros e periferias na escrita das

histórias locais

Mediação: Sílvia Martinez (UENF)

Professor Doutor Rodrigo Rosselini (IFF – Campos dos Goytacazes/RJ)

Professor Doutor Rui Aniceto (FFP/UERJ)

Professora Doutora Luara Santos (SME-I e SME-RJ)

ATIVIDADE DE ENCERRAMENTO

Atividade cultural de encerramento: Coral Altivoz da UERJ; e Mesa de homenagem às Professoras Doutoras Ana Waleska Mendonça e

Arlette Gasparello

 

Fonte: Programação final. https://drive.google.com/file/d/1J_z7_l2rEeD4vPhmxAQp2UY11BF9jwMR/view

 

Se as mesas de abertura e encerramento conversam sobre temáticas de tempo e abordagem sobre o local, as apresentações ou organizações dos direcionamentos de apresentações, tais como os simpósios temáticos para a ANPUH e os eixos temáticos para a EHED, estavam com direcionamentos distintos. Sobre as apresentações dos trabalhos da ANPUH, destaca-se que foram 35 propostas de Simpósio Temáticos na ANPUP-RJ, que, a partir de uma análise dos títulos, permite indicar que os temas são diversos, mas com forte interface com o ensino de história, visto que 9 propostas estão relacionadas ao ensino, seja no âmbito da memória, das políticas públicas e do currículo, com atravessamentos das demandas interseccionais. No entanto, a dimensão do local não parece ser uma questão central para os pesquisadores do campo da História, já que poucos foram os trabalhos que destacaram a ênfase no local, seja o próprio estado do RJ ou a Baixada Fluminense, local da sede do evento. Sendo eles: ST5. As singularidades como potência: o individual e o local na pesquisa e no ensino de história —coordenação: Andréa Camila de Faria Fernandes (Colégio João Lyra Filho), Claudia Patrícia de Oliveira Costa (Secretaria do Estado de Educação do Rio de Janeiro)—; ST 10. História e direito à cidade: favelas, subúrbios, periferias e assentamentos informais no Brasil —coordenação: Mauro Henrique de Barros Amoroso (UERJ/FEBF), Mario Sergio Ignácio Brum (UERJ), Rafael Soares Gonçalves (PUC-Rio)—; ST 11. História da Baixada Fluminense e as periferias: pesquisa e ensino —coordenação: Linderval Augusto Monteiro (Universidade Federal da Grande Dourados), Nielson Rosa Bezerra (Universidade do Estado do Rio de Janeiro), Eliana Santos da Silva Laurentino (Estado RJ)—; ST 23. Mapeamento, memórias e histórias do solo afro-indígena do Rio de Janeiro entre os séculos XIX e XX —coordenação: Ana de Melo (Prefeitura da Cidade do Rio de janeiro), Lucimar Felisberto dos Santos (pesquisadora do Grupo de Estudos de História da Educação Local, FEBF-UERJ; professora das redes públicas municipais de educação de Duque de Caxias e Magé)—; ST 30. Paisagem, memória e diversidade nas cidades fluminenses: entre o patrimônio de pedra e cal, material e o intangível, imaterial de indígenas, quilombolas e imigrantes que conformam nossa paisagem cultural —coordenação: Andréa Casa Nova Maia (Universidade Federal do Rio de Janeiro), Luciene Pereira Carris Cardoso (UERJ), Cesar de Miranda e Lemos (Instituto de História da Universidade Federal do Rio de Janeiro)—.

 Já no Encontro de História da Educação (EHED), os eixos da última edição de 2024 não apresentam especificidade sobre o local ou ênfase na Baixada Fluminense. No entanto, os trabalhos sobre a Baixada Fluminense estavam distribuídos em quase todos os 10 eixos. Apenas no eixo 05 —Imprensa, Impressos e Periódicos—, não foi identificado trabalho com foco na Baixada Fluminense, e no eixo 09 —Teorias da História e Historiografia da Educação— constava apenas a publicação de livro com essa proposta. Contudo, acredito que as produções sobre o evento do EHED seja um caminho comparativo com o encontro da ANPUH-RJ, ou seja, uma preocupação de refletir o quanto o local ou suas identidades locais são potências de lentes da História.

Quadro 5. Eixos de trabalhos. EHED 2024

 

IV EHED - 2024

EIXO

BAIXADA FLUMINENSE

TOTAL DE TRABALHOS

Eixo 01   Educação e Movimentos Sociais –

4

8

Eixo 02 - Educação e Interseccionalidade

1 - apresentação

1 - livro

26

Eixo 03 – Histórias da Profissão Docente

4

14

04. Projetos Educacionais e Políticas Públicas

2

20

Eixo 05 – Imprensa, Impressos e Periódicos

0

19

Eixo 06 – Arquivos, Acervos, Fontes e preservação documental

3

19

Eixo 07 –Instituições, Disciplinas Escolares e Práticas Difusas de Educação

7

39

Eixo 08 - Sujeitos, Intelectuais e Ideias Pedagógicas

2

26

Eixo 09 – Teorias da História e Historiografia da Educação

1 - livro

8

Eixo 10- História das infâncias e das juventudes

1

10

TOTAL

26

170

 

Fonte: Programação final. https://drive.google.com/file/d/1J_z7_l2rEeD4vPhmxAQp2UY11BF9jwMR/view

 

No que tange a abordagem sobre o local nos encontros de história da educação é notório que a gênese do próprio evento mobilizou uma preocupação em refletir a importância sobre o local e o regional para as pesquisas. Além disso, cada edição contou com publicações específicas, apresentando significativos balanços e análises sobre o campo. Desse modo, destaco que a proposta aqui é realizar um olhar do evento de 2024[5] considerando a possibilidades de diálogos e direcionamentos para a Baixada Fluminense. No entanto, cabe alguns apontamentos dos eventos anteriores e suas respectivas publicações. A primeira edição do evento ocorreu em 2007 na Universidade Federal Fluminense (UFF). A publicação do livro, sobre o evento, ocorreu em 2009. História da educação: desafios teóricos e empíricos, trabalho organizado por Ana Waleska Mendonça; Claudia Alves; José Gondra; Libânia Xavier e Nailda Bonato; O segundo EHEd-Rj aconteceu em 2010, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UNIRIO), com a publicação em 2013 do e-book: A história da educação no Rio de Janeiro: identidades locais, memória e patrimônio, com Nailda Marinho da Costa Bonato, Libania Xavier como organizadores; e o terceiro encontro ocorreu 2013, mesmo ano da publicação do segundo encontro, e foi sediada na Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro. A publicação sobre o evento foi realizada em 2019 na Revista Contemporânea de Educação, por Amália Dias e José Somma, sob o título: Quintais da história da educação fluminense: balanços, gangorras e escorregos. Além do registro sobre o III EHEd-RJ, o artigo apresentou um balanço dos três eventos.

 Seguindo essas pegadas, de um caminho bem pavimentado e com sólidas referências do campo, me arrisco ensaiar algumas reflexões, considerando o evento de 2024 em perspectiva de escala com o campo da História e em diálogo com a produção sobre a Baixada Fluminense, aproximando ainda mais a investigação que venho desenvolvendo sobre a potência de estudo do local, a partir da Baixada Fluminense (Laurentino, 2021, 2024).

Desse modo, destaco a apresentação realizada por Claudia Alves (2009), na publicação do I EHEd-RJ, na qual sugere a importância de pensar as pesquisas da história da educação no Rio de Janeiro. Alves afirma:

Buscamos criar uma oportunidade de coesionar pessoas que possuem um grande interesse comum em torno de certas temáticas. Daí surgiu a proposta de organização do I Encontro de História da Educação do Estado do Rio de Janeiro (I EHEd-RJ), cujos textos apresentados nas mesas redondas compõem o presente libro. (Alves, 2009, p. 7)

   A autora nos lembra que na década de 1990[6] foi crescente o volume de produções de pesquisas históricas sobre o Rio de Janeiro, não apenas nos programas de pós-graduação em educação, mas também em “programas de áreas inusitadas, como os de engenharia, serviço social, matemática, enfermagem, entre outros” (Alves, 2009, p. 8). Além disso, aponta os desafios da relação dos debates sobre o Rio de Janeiro na abordagem regional, considerando que “o caráter nacional se impõe como marca identitária de textos” (Alves, 2009, p. 8), diante do posicionamento político e administrativo do estado. Dessa forma, Alves destaca que os textos reunidos na primeira edição do evento são resultado do movimento de pesquisadores “pensado e concretizado em nível estadual” e que “abarca preocupações de caráter abrangente, que atravessam a pesquisa histórica” (Alves, 2009, p. 9). As publicações sobre o I e II EHEds são indicativos do quanto as organizações das mesas e conferências, pautaram a abordagem sobre o local e o regional e como cada publicação indica uma interferência na realidade do evento seguinte. Nesse sentido, estou considerando que cada organizador, mesmo com interlocuções diretas no campo e com os demais membros, também estão sofrendo influências do tempo da produção e das produções e balanços de cada publicação, como podemos observar no quadro abaixo:          

Quadro 6. Capítulos publicados. EHED 1 - EHED 11

CAPÍTULOS PUBLICADOS

1º EHEd-RJ

2º EHEd-RJ

Memória, História e Política - Margarida de Souza Neves

Prefácio - José G. Gondra

Perspectiva da Produção Historiográfica: Apresentação - Ana Waleska Mendonça

Das possibilidades abertas para a pesquisa  em história da educação no Rio de Janeiro  - Nailda Marinho da Costa Bonato e Libania Xavier

História, Interdisciplinaridade e Marxismo - Sonia Regina de Mendonça

História do tempo presente e história oral - Marieta de Moraes Ferreira

Caminhos da Historiografia da Educação: algumas reflexões - Clarice Nunes

 Memória e Patrimônio educacional Memória e patrimônio educacional do Rio de Janeiro  - Nailda  Bonato

História da Educação e História Local: Libânia Nacif Xavier

O núcleo de documentação e memória do Colégio Pedro II e sua importância para a preservação do patrimônio histórico

e cultural da educação brasileira -  Beatriz Boclin Marques dos Santos

História da Educação e História Regional: Experiências, dúvidas  e perspectivas - Luciano de Faria Filho

 Identidades locais e história da educação Identidades locais e história da educação no Rio de Janeiro - Silvia Martinez

Pense Globalmente, pesquise Localmente? Em busca de uma mediação para a escrita da História da Educação - Maria Helena Câmara Bastos

Por que estudar o local? A cidade como possibilidade de compreensão da história e da memória escolar gonçalense  - Maria Tereza Goudard Tavares

Historiadores da Educação no Ceará: uma experiência de formação de pesquisadores - Maria Juraci Cavalcante

Centro de Pesquisa, Memória e História da Educação da cidade de Duque de Caxias e Baixada Fluminense – CEPEMHEd  -  Fátima Bitencourt David

Acervos, preservação documental e História - Nailda Bonato

Instituições escolares, Culturais e Científicas Instituições educacionais do Rio de Janeiro -  Ana Waleska Pollo de Campos Mendonça

O pesquisador e o desafio das fontes - Maria de Lourdes Fávero

Escola fluminense e marcos históricos: discursos oficiais - Lia Ciomar Macedo de Faria

O Historiador, o Arquivo, o Sigilo e a Perda - Beatriz Kushnir 

 Instituições escolares, culturais e científicas: espaços de memória e de história  - Alda Heizer

Para uma História do I Encontro de História Educação do Rio de Janeiro - José Gondra

 Balanço e Perspectivas Apontamentos sobre a história da educação configurada no II Encontro do Rio de Janeiro (2010) -  Libânia Xavier e Fábio Garcez de Carvalho

Fonte: elaborado pela autora a partir dos livros de cada evento, respectivamente Mendonça et al. (2009) e Bonato e Xavier (2013).

 

Como resultado das mesas, conferências e demandas dos organizadores dos dois eventos, as publicações conversaram sobre as demandas teóricas e metodológicas sobre as perspectivas de estudos do local e regional, bem como o alargamento das escritas sobre a história da educação do estado. No entanto, observo que José Gondra participou do fechamento da primeira edição com o texto “Para uma história do I Encontro de História da Educação do Rio de Janeiro”, em um trabalho que aponta as lentes do campo. O mesmo autor aparece no prefácio da segunda edição do EHED, no qual destaco sua ênfase aos sentidos dos caminhos que o evento tem realizado, à saber:

O diálogo com outros campos disciplinares, as condições locais, os perfis institucionais, as perspectivas teóricas, os vínculos com sistema educativo, movimento social e políticas mais gerais parecem representar alguns dos aspectos que ajudam a compreender o processo de constituição do campo da história da educação, suas potências e fragilidades. (Gondra, 2009, p. 10)

Nesse sentido, a apresentação dos capítulos, que resultam das conferências e das mesas da segunda edição do evento, traz apontamentos que são apresentados por Nailda Bonato e Libania Xavier em “Das possibilidades abertas para a pesquisa em história da educação no Rio de Janeiro”. Para tanto, apresentam como os capítulos correspondem às mesas organizadas, sendo elas: “Memória e patrimônio educacional no Rio de Janeiro; Identidades locais e História da educação no Rio de Janeiro”; “Instituições escolares, culturais e científicas no Rio de Janeiro”, e “Identidades locais e história da educação no Rio de Janeiro”. No que tange à mesa “Identidades locais e história da educação no Rio de Janeiro”, destaco o capítulo de Fatima Bitencourt, Centro de Pesquisa, Memória e História da Educação da cidade de Duque de Caxias e Baixada Fluminense (CEPEMHEd), que de acordo com a publicação tinha como objetivo “conhecer as ações práticas no âmbito da preservação do patrimônio educacional da Baixada Fluminense”. Além disso, o trabalho recebe o seguinte destaque na apresentação:

O texto de Fátima contém, por isso, uma pedagogia que nos alerta para perceber as dimensões culturais, simbólicas e materiais que compõem a herança educacional de uma região ainda pouco privilegiada pelos estudos de história da educação. Ambos os textos nos alertam para a profícua relação entre a pesquisa em história da educação e o estudo das identidades locais, abordando a cidade como possibilidade de compreensão da história e da memória escolar, tal como propõe e desenvolve Maria Tereza Goudard Tavares, no contexto da educação no município de São Gonçalo (RJ). (Bonato e Xavier, 2009, p. 13; grifo meu)

   Nesse sentido, considero que o II EHEd-RJ sinalizava para uma abordagem da “cidade como possibilidade de compreensão da história e da memória”, ou seja, a importância do local para a percepção dos “estudos das identidades locais”[7]. Algo que se confirmou no III evento por meio da proposta do próprio evento, que considerou receber trabalhos interessados não apenas no Rio de Janeiro, mas em trabalhos que operem na perspectiva do regional, como segue:

 Nos preparativos do III EHED, ocupou espaço nos debates da Comissão Organizadora o questionamento sobre a aceitação, ou não, de trabalhos que não versassem sobre o Rio de Janeiro. A opção por não adotar esse crivo, permitiu a participação de instituições de fora do Estado e de estudos alheios à temática da história regional fluminense ou mesmo carioca, mas que também compartilhavam do estatuto de história regional. (Dias e Sooma, 2019, p. 241)

   Em diálogo com Bruno Bontempo Jr., o artigo de Dias e Sooma (2019, p. 228) lembra o sentido da defesa da regionalização nas pesquisas tanto na ANPED, a partir da década de 1980, quanto no próprio Congresso Brasileiro de História da Educação. Assim destacam que:

A produção de uma historiografia local da educação era valorizada em termos dos desafios teórico-metodológicos que acenavam para a necessidade de identificação, preservação de fontes e constituição de acervos documentais em âmbito local e regional. (Dias e Sooma, 2019, p. 230)

Isso reforça que diante das demandas de fomentar pesquisas fora do eixo sudeste, os eventos oportunizam leituras fora da chave de “histórias nacionais”. Assim, Dias e Sooma apresentam, a partir dos três eventos realizados, em 2007, 2010 e 2013, “balanço”, “gangorra” e “escorregos” diante das temáticas apresentadas nos eixos temáticos sobre os eventos.

O III EHED-RJ ampliou o diálogo com trabalhos interessados no “estatuto da história regional”, com isso recebeu propostas de estudos de outros estados. O balanço do evento realizado por Dias e Sooma (2019, p. 241) apresentam o quanto estão interessados em identificar:

Em que medida uma historiografia carioca e fluminense compareceu nos quintais do EHED. Observamos as localidades da cidade do Rio de Janeiro ou regiões do Estado que se inscreveram na historiografia local, como por exemplo: Madureira, São Cristóvão, Quintino, Guaratiba, Niterói, Campos dos Goytacazes, São Fidélis, Iguaçu, Nova Iguaçu, Mesquita, Duque de Caxias, Itaguaí, São Gonçalo, Bom Jesus do Itabapoana, Vassouras, Paraíba do Sul, Paty do Alferes, Região dos Lagos (cidades não identificadas). (Dias e Sooma, 2019, p. 241)

Tal investigação do último evento com questões provocativas sobre os investimentos teóricos e metodológicos dos trabalhos é significativo para a compreensão dos sentidos do local na historiografia. Se os autores recortaram o Rio de Janeiro para análise, destaco que meu interesse está para a especificidade da História e História da Educação na Baixada Fluminense, considerando que os investimentos para as pesquisas na Baixada Fluminense podem ser uma referência para investimento de estudos com foco no local, por meio da cultura histórica que se desenvolveu no território, confirmando que os projetos historiográficos são caminhos para os projetos políticos. Isso reforça o quanto é possível entender em escalas o quanto impactam e são impactados os investimentos no local.

Assim, por mais que os “brincantes” (Dias e Sooma, 2019) do campo da História na Baixada Fluminense tenham avançado em suas pesquisas com ênfase no local, essa não parece ser uma preocupação de reflexão teórica e metodológica no âmbito regional, e menos ainda no nacional. Em trabalho anterior (Laurentino, 2021) apresento como são mobilizadas as dimensões de poder da produção do conhecimento a partir da criação de um Instituto Histórico Municipal na Baixada Fluminense (Rio de Janeiro, Brasil), considerando os interesses políticos dos intelectuais nas obras e o impacto no desenvolvimento de pesquisas na região. Com isso, desdobro as análises das produções sobre e ações educativas no local, evidenciando os investimentos de ações diretas no local. Assim, a pesquisa está ancorada no reconhecimento que a Baixada Fluminense, composta por municípios que integram a região metropolitana do Rio de Janeiro, tem fortes bases nas escritas históricas sobre o território como mecanismos de articulação para a construção de suas ações e projetos políticos.

 Logo, estou sinalizando como os eventos regionais conversam com esses usos do passado, diante de temáticas tão importantes em pauta no campo, a saber: a própria profissão e o sentido do historiador em um contexto de debates sobre, igualdade, democracia e diversidade. No que tange o campo da História, é preciso um investimento da leitura sobre a dimensão do local que as propostas regionais abordam.

 Assim, por mais que tenha ocorrido um certo crescimento sobre as abordagens sobre o ensino e suas implicações mais inclusivas em eventos da ANPUH-RJ, o poder dos usos do passado no local parece ser transversal. Neste ensaio, estou considerando uma abordagem mais recortada, que é olhar como a Baixada Fluminense se apresenta nas propostas. Acredito que ao olhar cada simpósio da ANPUH regional seja possível identificar como o local pode ser mobilizado nos estudos. Contudo, destaco que as produções apresentadas no evento regional da ANPUH que estiveram alocados no Simpósio Temático 11. História da Baixada Fluminense e as periferias: pesquisa e ensino, coordenado por Nielson Bezerra, Linderval Monteiro e Eliana Laurentino, pareciam estar em diálogo com um olhar sobre o local e suas potências de usos do passado, na relação pesquisa e ensino, uma vez que, os integrantes resolveram escolher o simpósio específico, o que pode indicar um interesse de marca identitária com o território, ou mesmo alinhamento com os orientadores que estariam organizando o simpósio. Como o evento foi realizado na Faculdade de Educação da Baixada Fluminense (FEB-UERJ) e UNIGRANRIO, faculdades localizadas em Duque de Caxias-RJ, na Baixada Fluminense, consideramos essa mobilização de um simpósio específico como o possível alinhamento dos participantes. Isso carece de um levantamento mais detalhado.

Destaco que o evento bianual da ANPUH-RJ, nos últimos anos abordou temáticas amplas e em diálogo com as questões relacionadas ao futuro do campo, sendo eles:

      Evento 2018. XVIII Encontro de História. Sem tema. Conto com um simpósio de Baixada Fluminense;

      Evento 2021. O XIX Encontro de História. Tema: a História do futuro: ensino, pesquisa e divulgação científica;

      Evento 2022. 20º Encontro de História da ANPUH-Rio. Tema: 1822/2022: 200 anos de História e Historiografia;

      Evento 2024. 21º Encontro de História da ANPUH-Rio: História, Democracia, Igualdade e Diversidade.

 

É possível dizer, que apenas no Encontro Regional de 2018 ocorreu um ST específico da Baixada Fluminense. Desse modo, estou considerando que muitas foram as apresentações com outras abordagens que estiveram nos 34 simpósios temáticos propostos, em 2024, mas diante de um ST específico, os estudos que desejaram focar na perspectiva do local, apresentaram-se neste simpósio, mas sem uma problematização mais específica sobre o potencial teórico metodológico sobre o local e o regional. Reforço que isso indica estudos de balanço teórico historiográfico dos eventos da ANPUH-RJ, já que não identifiquei produções de balanços sobre o evento, tal como identificado para o EHED regional.

Esse diálogo sobre os limites dos investimentos sobre os sentidos do local no campo da História é apontado por Nuno Bessa Moreira (2016). Moreira indica que os estudos sobre história local, com foco teórico-metodológico, são restritos, o que contraria o desenvolvimento das dimensões empíricas. Partindo também de um espaço de produção, a Revista de História afirma que a história local tem articulação na formação da historiografia portuguesa. Moreira (2016, p. 62) chama atenção que alguns autores na Revista de História, analisada por ele, “exibem uma visão paternalista do patrimônio, enveredando outros por uma historiografia crítica, de par com tentativas de investigação tributárias do escrúpulo documental do historicismo rankeano e menos devedoras da Escola Metódica Francesa”. Essa reflexão dialoga com Neto e Rodrigues (2012), que confirman a importância dos estudos sobre história local e as referências identitárias. Ela reforça que a herança do campo possui alicerces nos “estudiosos locais, ou simples curiosos das ‘Antiguidades’ das terras, e por investigadores ligados a academias e instituições universitárias” (Neto e Rodrigues, 2012, p. 47). Nesse sentido, a história local deve ser estudada como um “ramo historiográfico plural”, que, para ela, não pode ser limitado em “classificações rígidas, redutoras da sua riqueza e complexidade” (Neto e Rodrigues, 2012, p. 47).

De acordo com Neto e Rodrigues, na atualidade, a história local “tem-se revelado, igualmente, um espaço de profícuo diálogo com a sociedade, em particular com as instituições de poder local” (Neto e Rodrigues, 2012, p. 70). A identificação e a preservação em projetos de patrimônio local, a organização de ecomuseus e turismo cultural, são instrumentalizadas pela história local, o que possibilita novas configurações territoriais, que geram conhecimentos sobre o passado pelas populações locais. Algo que tem comparecido nos eventos regionais do campo da História da Educação. No qual, destaca-se o investimento do Grupo de Estudos da História da Educação Local (EHELO), criado em 2013 por Amália Dias, na Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, que desenvolveu e potencializou pesquisas sobre os processos de escolarização na região. Dias, em 2023, organizou com Angélica Borges, vice-líder do grupo, o livro História da educação do Recôncavo da Guanabara à Baixada Fluminense, obra que reúne trabalhos de 30 autores.

 

Considerações finais

Dessa forma, o investimento nos usos do passado, com relação entre a memória e a história foi percorrido pelo campo da História da Educação em diálogo com o campo da História na Baixada Fluminense. Para Dias, Borges e Pinheiro (2021a, p. 36), “as mudanças nas oficinas de história também fizeram veredas na História da Educação”. No entanto, destaco que a ênfase que o local é uma ferramenta teórica e metodológica importante para o campo da História da Educação, é destacado significativamente no evento regional do Rio de Janeiro. Isso parece ter impacto direto sobre as potências de estudos sobre os “locais, abordando a cidade como possibilidade de compreensão da história e da memória escolar” (Bonato e Xavier, 2009, p. 13), expresso no crescimento dos trabalhos sobre Baixada Fluminense.

Os investimentos de estudo na Baixada Fluminense em diálogo com o patrimônio e os ecomuseus, que se expressam em muitas ações de práticas educativas avançam na perspectiva de valores e sentidos sobre o local, o que pode ser um caminho fértil para a identificação, o reconhecimento e a valorização dessas análises para estudos em perspectivas de escalas sobre o território. Isso parece que tem sido realizado pelos pesquisadores do campo da história e do campo da história da educação, que alimentam um percurso de cultura histórica na Baixada Fluminense. No entanto, o reconhecimento que essas abordagens são significativas para entender o “singular” e ampliar a lente para as experiências éticas, políticas e filosóficas que operam no local não comparecem do mesmo sentido nos dois eventos.

De acordo com os investimentos de mesas, reflexões e publicações dos EHEDs, tenho forte indicativo de ser esse o interesse do campo da História da Educação. O campo tem atribuído mais atenção e investimentos teóricos e metodológicos nessa perspectiva, expressos por meio das publicações que indicam impacto no próprio campo, visíveis, por exemplo, no investimento do Grupo de Estudos da História da Educação Local (EHELO), que desenvolveu e potencializou pesquisas sobre os processos de escolarização na região. Tudo isso nos convida para maiores estudos sobre a temática e os caminhos das escritas na Baixada Fluminense, bem como os sentidos no local.

Financiamiento

El presente trabajo se realizó con recursos propios de la autora.

Conflicto de intereses

La autora no tiene conflictos de interés que declarar.

Referências

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* Eliana Santos da Silva Laurentino é professora adjunta e do Programa de Pós-Graduação em Educação, Cultura e Comunicação em Periferias Urbanas (PPGECC) da Faculdade de Educação da Baixada Fluminense, Universidade do Estado do Rio de Janeiro.

[1] Laurentino (2021), a partir das reflexões sobre a invenção do nordeste (de albuquerque), e da investigação dos referenciais simbólicos que constituem o território da baixada, num jogo de alteridade frente à importância atribuídas pelos agentes históricos ao papel do Estado do Rio de Janeiro na historiografia nacional, conclui que a ideia de Baixada Fluminense se enquadra em uma invenção deste território. Logo, as produções sobre o local constituem meios de identificação das continuidades e descontinuidades na escrita regional, em uma perspectiva de invisibilidade da singularidade de esse espaço.

[2] Na perspectiva geográfica, para Manoel Ricardo Simões (2006), não existe uma definição precisa da Baixada Fluminense, com limites e municípios específicos, pois as definições territoriais podem variar conforme os interesses do pesquisador. Entretanto, parece unânime que Duque de Caxias e Nova Iguaçu sejam “o núcleo duro” da região, e que também sejam considerados como parte desse território os “municípios satélites”: São João de Meriti, Nilópolis, Belford Roxo, Queimados, Mesquita e Japeri.

[3] Vide SIGAA (Sistema Integrado de Gestão de Atividades Acadêmicas). https://sigaa.ufpb.br/sigaa/public/docente/portal.jsf?siape=1022288

[4] Vide CEO (Centro de Estudos do Oitocentos). http://www.ceo.uff.br/web/membros/ismenia-de-lima-martins/

[5] A publicação do IV EHEd, até o momento deste ensaio, encontra-se em elaboração, de acordo com os organizadores.

[6] Com a fusão do Estado da Guanabara ao do Rio de Janeiro, em 1975, demandas antigas da região, como as questões de infraestrutura, receberam uma certa centralidade diante das expectativas do cenário político e econômico sobre a região metropolitana do Rio de Janeiro. Isso fez aumentar o volume de estudos em diferentes programas de pós-graduação nas décadas seguintes (Laurentino, 2021, p. 115).

[7] Sobre os caminhos historiográficos da história da educação na Baixada Fluminense, vide Dias, Borges e Pinheiro (2021a, 2021b).